A vida não é tão bela em Life is Strange

Talvez o aspecto mais primordial dos videogames é que eles permitem que o jogador viva a narrativa de maneira única. É exatamente isto, somado à mecânica que define o conceito de Life is Strange (Dontnod Entertainment, 2015), que faz dele um jogo indispensável.

A história é o que torna o jogo especial

Dividida em cinco episódios*, a história é, sem sombra de dúvida, o que há de melhor em Life is Strange: você joga no papel da jovem Max Caulfield, estudante de fotografia, apaixonada pela arte e cultura pop; mas uma garota comum, que enfrenta dificuldades sociais (ela certamente não é a “aluna popular”) e da juventude mas que, um dia, descobre, sem querer, possuir o poder de voltar no tempo. Graças a este poder, ela salva uma garota de ser morta por um aluno e acaba se metendo em uma trama que envolve desaparecimentos, suicídio e outros mistérios ainda mais macabros.

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Life is Strange não é um jogo leve… a história não é feliz, aborda temas como bullying**, famílias problemáticas, drogas, sexo, poder, psicopatia, insegurança. Mas é exatamente isto que torna o jogo tão imersivo – são problemas reais, mundanos (embora alguns mais sombrios), então é fácil se identificar com Max ou os outros alunos da Blackwell Academy.

Além disto, as decisões que o jogador tem que tomar – e que alteram o curso da história – são uma constante prova de moral, por exemplo, ao decidir se puxa ou não o gatilho de um revólver contra um homem que ameaça a personagem. É interessante como Life is Strange pode revelar o melhor (e o pior) da gente.

Adventure da era moderna

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Life is Strange é um adventure moderno (quase um point-and-click), com gameplay muito semelhante ao dos clássicos dos anos 90. Você não atira, não corre, não tem liberdade de ir para todo lugar; mas recebe opções diferentes de interação com os objetos e sugestões de diálogo, com cada escolha influenciando o caminhar da história. A não-linearidade é a palavra-chave aqui: imagine uma linha do tempo principal, que vai se desenvolvendo por meio de ramificações, das quais o jogador é responsável.

O que difere este game dos antigos, porém, é a possibilidade de desfazer a ação e faze-la diferente, seja por curiosidade, seja porque não gostou do resultado da primeira tentativa – é bom deixar claro que nem sempre Max consegue rebobinar o tempo. Esta mecânica faz com que Life is Strange seja inédito, e traz o gênero para o século XXI.

Grande direção de arte

O jogo é muito bonito, sem se preocupar em ser fotorrealista – ele não precisa disto. Tudo é pintado à mão, dos rostos e roupas dos personagens, aos cenários, aos objetos com que Max interage. Eles têm um charme, às vezes são mais detalhados, outras vezes compostos de alguns rabiscos rápidos suficientes para dar a cara ao objeto.

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A fotografia é impecável e mostra o cuidado com os ângulos de câmera e enquadramentos, especialmente nas cutscenes. A trilha sonora é outro destaque, recheada de músicas indie folk e suas levadas de voz e violão que casam perfeitamente com a personalidade da protagonista e refletem seus sentimentos, inseguranças e introspecções. É tudo muito fofo.

O final é fantástico!

Eu admito a possibilidade de estar me deixando levar pela emoção, mas o finalzinho do 4º episódio é de tirar o fôlego e o 5º episódio é de te botar de joelhos. A esta altura o game toma um rumo bastante diferente dos episódios anteriores, tanto na questão da história quando no próprio level design e nos desafios, evidenciando as consequências das “viagens no tempo” da protagonista Max e se mostrando uma aula de criatividade e flerte com o nonsense.

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Quando joguei Beyond: Two Souls em 2014 (leia meu review aqui), fiquei surpreso com a qualidade gráfica e com a narrativa, mas em dúvida se gostaria de jogar um game no estilo “filme interativo” novamente… no fim das contas, cá estou, falando bem de Life is Strange, uma experiência intrigante, imersiva e um dos poucos jogos que realmente mexeu comigo.

As tantas escolhas possíveis garantem ao jogo suficiente rejogabilidade. Tenho certeza que vou experimentar outros caminhos em breve, e recomendo que você dedique algumas horas para Life is Strange.

*Eu esperei desde janeiro para que fossem lançados todos os episódios, antes de jogar, porque sabia que: 1) ficaria ansioso pela continuação; 2) esqueceria o que aconteceu no capítulo anterior.

**O tema é abordado de maneira muito mais realista e sisuda – e consequentemente mais fácil de se identificar – do que no jogo Bully (Rockstar Games, 2006), por exemplo. Em Life is Strange, a conversa sobre bullying reflete o posicionamento atual da nossa sociedade, retratando com seriedade as consequências físicas e psicológicas que tais atos provocam nas vítimas.

Flávio

Me formei na faculdade de Design em 2007, sou apaixonado pela minha profissão, por rock'n'roll, cozinhar, jogar video game, por Star Wars e hamburger. Colaborador do Greenpeace e Médicos Sem Fronteiras.

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