Por que eu não consigo jogar Doom?

Este post não tem nada a ver com terror e medo de monstros, mas com algo ainda mais apavorante: motion sickness ou, no caso de videogames, o tal simulation sickness. Literalmente, náusea.

Tudo começou quando eu era criança e joguei Doom (id Software, 1993) pela primeira vez, em meados de 1995 quando o clássico FPS era distribuído como shareware em praticamente todo computador, e senti algo que jamais tinha sentido com qualquer videogame antes. Eu era daquelas crianças que ficavam enjoadas em viagens de carro (ah, as terríveis descidas de serra) e jogar Doom me fez sentir os mesmos sintomas: tontura, estômago embrulhado e uma leve dor de cabeça.

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Em Star Wars: Dark Forces, você joga como o mercenário Kyle Katarn

E não era só com Doom não… Wolfenstein 3D (id Software, 1992) também me fazia sentir enjôo, Heretic (Raven Software, 1994), Descent (Parallax, 1994), HeXen (Raven Software, 1995), Quake (id Software, 1996), Duke Nukem (3D Realms, 1996) e até meu amado Star Wars: Dark Forces (LucasArts, 1995) me faziam passar mal. Não dá para dizer que não tentei. Só de lembrar das cenas já me dá um pouquinho de mal-estar.

A causa disto pode ser explicada cientificamente. A teoria mais aceita é que os videogames criam a ilusão de movimento (intensificada nos FPS, cuja perspectiva parte dos “olhos” do personagem) mas o nosso ouvido interno, mais especificamente o aparelho vestibular, não é capaz de detectar tal movimento. A região do cérebro que regula o vômito – a tal da área postrema – então entende que isto é causado por uma alucinação, que pode ser consequência de envenenamento*, e dá ordens ao corpo para eliminar a substância por meio do vômito.

Felizmente para mim, a evolução gráfica dos games fez com que estes sintomas desaparecessem – eu já não sentia mais enjôos com GoldenEye 007 (Rareware, 1997) e Turok: Dinosaur Hunter (Iguana Entertainment, 1997) por exemplo e certamente não sinto com jogos das gerações mais recentes. O problema ficou, no meu caso, limitado aos antigos corridor crawlers.

É possível se curar deste mal?

Tecnicamente, não. Muita gente** sofrerá de simulation sickness a vida toda, seja com jogos de tiro, de corrida ou qualquer outro, por isto pesquisei algumas dicas que podem ser seguidas por quem sente-se enjoado ao jogar videogames:

  • A primeira e mais importante é jogar partidas mais curtas, com cerca de 20 minutos, fazendo mais pausas. Isto minimiza os sintomas e, inclusive, pode até incentivar o corpo a criar alguma tolerância contra o enjôo de simulação. 🙂

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  • Diminua o brilho da TV. Várias fontes afirmam que mesmo pessoas propensas a sentir náuseas ao jogar videogames sentiram-se menos mal com telas menos brilhantes.
  • Jogue de estômago vazio. Embora seja muito bom fazer a digestão jogado no sofá com o controle nas mãos, se você já tem tendência a se sentir enjoado, o estômago cheio só vai te fazer vomitar.
  • Se seu game tiver a opção de desativar o screen bob, aquele efeito de pêndulo que simula a cabeça do personagem balançando enquanto corre, então desative. A tela balança menos e dá menos chances para o mal-estar.
  • Se o game tiver a opção de afastar a câmera, afaste-a. Gamers descobriram que aumentar o seu campo de visão no jogo pode fazer a diferença e diminuir os sintomas do simulation sickness.
  • Não jogue games portáteis no carro. Ler em um carro em movimento é uma causa bem conhecida de enjôo, já que seu ouvido interno detecta movimento mas seu corpo está parado. Jogar no carro, consequentemente, causa o mesmo efeito.
  • A última dica, e a que considero mais controversa, é tomar remédios contra enjôo. Como os sintomas são os mesmos de andar de carro, em teoria a pílula fará efeito.

Testando a dica do remédio

Embora eu ache bem esquisito tomar remédio para jogar videogame, decidi fazer o teste, já que li em vários sites pessoas relatando que isso ajuda. Meia hora antes de jogar Doom, tomei uma pílula de Dramin, que é o remédio que costumo tomar nas viagens.

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O anti-histamínico bloqueia os receptores dos núcleos vestibulares do sistema nervoso central.

O Dramin é um anti-histamínico, isto é, inibe a ação da histamina nos tecidos. A histamina é a substância envolvida nos processos alérgicos, liberada a partir de diversos estímulos e a causadora de sintomas como enjôo e náuseas. Por ser capaz de atingir o sistema nervoso central, o Dramin age diretamente nas regiões responsáveis pela sensação de enjôo.

Particularmente, não senti que o remédio tornou minha partida de Doom mais confortável e livre de tonturas. Não senti meu estômago embrulhar, e isto é bom sinal, mas aquela sensação esquisita tipo quando estamos bêbados foi perceptível, mesmo que de leve. O maior problema é que um dos efeitos do Dramin é sonolência, então não demorou muito pra que eu desligasse o jogo e fosse deitar na cama.

*Cientistas acreditam que este tipo de reação seja remanescente de quando nossos ancestrais farejavam as florestas atrás de comida. Ao ingerir algo tóxico (uma frutinha, por exemplo) o fulano se sentiria mal, seguiriam-se alucinações e o corpo reagiria botando tudo para fora.

**Estima-se que entre 10% e 50% das pessoas sofram de algum grau de simulation sickness; de casos como leves tonturas até graves convulsões.

Flávio

Me formei na faculdade de Design em 2007, sou apaixonado pela minha profissão, por rock'n'roll, cozinhar, jogar video game, por Star Wars e hamburger. Colaborador do Greenpeace e Médicos Sem Fronteiras.

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