Mas que raio é Bayonetta?!

Recentemente terminei os dois Bayonetta, uma dupla de jogos criados pela Platinum Games em 2009 e 2014 recheados de ação insana, personagens megalomaníacos, ângulos de câmera impossíveis, takes frenéticos, combos alucinantes e muito sangue.

Com notas altas em sites como Gamespot e Metacritic, comprei a versão de Wii U* porque todo mundo elogiou o gameplay mas, do momento que liguei o primeiro jogo ao momento em que terminei o segundo, confesso, ainda não entendi exatamente o que é Bayonetta!

“Esta sequência curta mas extrema não é nada mais que o primeiro passo em uma longa jornada de deliciosa insanidade que se seguirá, com cada momento levando os limites do ridículo ainda mais,” escreve Lark Anderson sobre a sequência que dá início ao primeiro jogo.

2674823-61sjb8qaa2l._sl1280_

Ridículo (no bom sentido) é um adjetivo que define bem o jogo. É tudo exagerado e isto não é exatamente ruim mas, indo em desacordo com a opinião dos gamers e especialistas, acho que Bayonetta tem seus prós e contras mas seu estilo é esquisito demais – quero dizer, algumas escolhas não ficam claras para mim. Vou começar com o que considero pontos positivos:

Jogabilidade simples e excelente sistema de combos

Todo mundo elogiou o gameplay e realmente, é de longe o melhor aspecto em Bayonetta. É um game razoavelmente fácil de jogar, não exige que você pense muito (como qualquer hack’n’slash) e permite que qualquer tipo de jogador possa aprecia-lo da mesma maneira – afinal de contas, qualquer um consegue apertar 2 botões (sim, o combate pode ser resumido em 2 botões).

bayonetta-combo

Para jogadores mais experientes, o sistema de combos é uma ferramenta interessante. Além de ter uma lista gigantesca de combinações de socos, chutes e tiros, o sistema permite que o jogador monte dois sets de armas, para uma variação ainda maior de golpes. Não é necessário decorar estas combinações, mas compreender como funcionam os combos pode significar vantagem contra um grupo grande de inimigos.

Minha única reclamação em relação ao sistema é que nas dificuldades Very Easy e Easy a protagonista (que se chama Cereza, diga-se de passagem) executa as finalizações automaticamente, isto é, o jogador perde um bocado de controle sobre quais movimentos vai executar.

Outro aspecto interessante do gameplay de Bayonetta é a habilidade de andar pelas paredes. Em noites de lua cheia, a heroína se torna capaz de desafiar a gravidade, levando o combate para as paredes e até de cabeça para baixo, habilidade que não só é divertida (quando a câmera não te ferra), mas adiciona uma nova dimensão ao gênero.

Por fim, ambos games oferecem uma boa variedade de estilos de jogo, que vão do hack’n’slash ao on-rails shooter, com uma pitada de RPG.

Enfrentando gigantes

No final de cada fase há um chefe, monstros gigantescos que personificam as virtudes cardinais e os pecados capitais, enviados para deter a bruxa Bayonetta. Estas batalhas elevam significativamente a dificuldade do jogo (mesmo nos níveis mais fáceis) e exigem habilidade do jogador saber se esquivar e atacar no momento certo.

Fortitudo
Fortitudo

Além disto, alguns lembram bastante os combates contra os gigantes em Shadow of the Colossus (Team Ico, 2005), com a protagonista escalando alguns dos monstros e destruindo-os. Isto é bem legal. Cada luta contra um chefe culmina em um ataque (Climax) convocando um dos muitos demônios com quem Bayonetta tem pacto, que surgem do cabelo da heroína para destruir brutalmente o inimigo e arrasta-lo para as profundezas do inferno. O que nos leva aos pontos negativos:

A partir daqui comento elementos que me desagradam no jogo, decisões de direção de arte que não fazem sentido para mim, mas que estão abertas a discussão.

Os cabelos sobrenaturais de Bayonetta

Embora o motivo não fique explícito em nenhum dos dois jogos, a magia da bruxa Bayonetta gira toda em torno de seus cabelos. Sim, seus cabelos. Uma decisão inesperada de character design.

Para começar, a própria roupa da bruxa é feita dos cabelos; os ataques especiais (Wicked Weave) também são desferidos transformando as mechas da heroína em enormes punhos e pernas; tal qual os demônios que são convocados nas finalizações (Umbran Climax), também materializados por meio dos cabelos de Bayonetta.

bayonetta_summon
Bayonetta fica nua ao invocar um dos demônios

Quando executa os ataques especiais e finalizações, por eles serem criados a partir dos cabelos da protagonista, sua roupa se desfaz e ela fica completamente nua. Vale notar que em Bayonetta 2, a protagonista usa roupa de baixo (embora mínima) que cobre algumas partes, possivelmente uma solicitação da Nintendo.

O motivo pelo qual o poder dela vem dos cabelos não é claro, mas pode ser uma referência a antigas crenças européias de que mulheres com cabelos longos eram mais sucetíveis a serem alvos dos incubi, demônios em forma masculina que se encontram com mulheres afim de ter relações sexuais com elas.

Personagem extremamente sexualizada

Diga-se de passagem, Bayonetta fica pelada frequentemente ao longo dos dois games (embora menos no 2º jogo), acontecimento que é potencializado pelas poses sugestivas e hipersexualizadas da protagonista, acompanhadas de ângulos de câmera oportunos e flashes congelando a cena em cada pose.

Algumas pessoas podem argumentar dizendo que Bayonetta é uma personagem feminina poderosa (e ela é), usa de sua sexualidade como arma e tem pleno poder sobre seu corpo como objeto de sedução; mas eu gostaria de ver o poder feminino sendo retratado de uma maneira que não seja exibindo o corpo nu em qualquer oportunidade durante o combate.

bayonetta
Este exemplo de take é bastante comum no decorrer dos dois jogos

Se os criadores do jogo realmente quiseram mostrar que a protagonista é forte e dona de seu próprio corpo (toda mulher é dona de seu próprio corpo), então demos um passo à frente; mas da maneira como fizeram, objetificando-a de forma despropositada, parece que demos um passo para trás.

Além disso, apesar de ser legal que a personagem use quatro revólveres ao mesmo tempo, dois deles ficam presos aos seus sapatos, o que também é uma desculpa para que ela contorça seu corpo e abra as pernas para matar os inimigos. Não bastando, na imensa maioria das cutscenes, a câmera foca diretamente ou faz contra-plongée da bunda ou dos peitos da protagonista. Parece exagero meu? Este artigo apresenta opiniões diversas de mulheres (vale destacar) sobre o assunto, recomendo a leitura.

Donzela indefesa

Uma coisa que me incomoda muito (já que estou falando em sexismo) é que, mesmo Bayonetta sendo uma personagem feminina forte, ainda assim o jogo se utiliza do clichê da donzela indefesa para que o personagem secundário Luka apareça na última da hora (em várias ocasiões) para salvar a protagonista – inclusive esta afirmando que Luka é só “um tonto que aparece do nada […] embora nas melhores horas”.

Balançando o esqueleto

Talvez o aspecto mais esquisito e ridículo (aqui sim no mau sentido) de Bayonetta sejam as performances de dança que a protagonista executa em várias ocasiões; cenas completamente gratuitas, que não fazem o menor sentido, não têm razão para existir, não têm explicação que não seja para satisfazer as fantasias dos gamers.

Sério, por quê as cenas de dança? Eu procurei na internet, li a wikia e aparentemente ninguém comenta ou se interessa em saber o motivo que levou os game designers a criar estas performances. Não bastando, os créditos de ambos os jogos passam enquanto a bruxa executa movimentos de pole dance.

A trilha sonora não combina

Eu não gosto da trilha sonora… embora seja situado no mundo moderno, Bayonetta tem uma dimensão épica, mitológica; mas a trilha sonora vai contra esta característica, misturando música pop pegajosa com o estilo retrô dos sintetizadores de arcade e música clássica. O destaque fica para o remix irritante de Fly Me to the Moon, de Frank Sinatra, que toca ao longo do primeiro jogo inteiro:

O foco de Bayonetta é claramente a ação frenética e o enredo meramente decorativo. Eu diria que o jogo é o equivalente gamer do filme Sucker Punch, de Zack Snyder, por bem ou por mal. Quando comprei os jogos eu já imaginava que veria os pontos que considero negativos, só não sabia que seriam em excesso. Do ponto de vista do gameplay, o jogo é muito bom; ainda assim todos os outros elementos que compõem Bayonetta parecem uma miscelânea de ideias aleatórias e nonsense.

Não estou recomendando o game mas também não estou dizendo para você não jogar. Ainda não sei se gosto ou não da série, porque ainda não descobri exatamente o que é Bayonetta.

*Bayonetta 2 é exclusivo para Wii U. Apesar de bem recebido, o primeiro Bayonetta não foi um sucesso de vendas, o que fez com que Sony e Microsoft perdessem o interesse na sequência. Os cabeças da Nintendo gostaram tanto do primeiro game que decidiram financiar sua continuação.

Flávio

Me formei na faculdade de Design em 2007, sou apaixonado pela minha profissão, por rock'n'roll, cozinhar, jogar video game, por Star Wars e hamburger. Colaborador do Greenpeace e Médicos Sem Fronteiras.

O que você acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s