Quando conheci The Order: 1886 (Ready at Dawn, 2015) o interesse foi instantâneo: me atrai o ambiente escuro da Londres vitoriana, a inspiração no steampunk, a história surrealista contemporânea à do detetive Sherlock Holmes*, as referências ao misterioso Jack o Estripador**, enfim… há muitos elementos interessantes que me chamaram a atenção no anúncio do jogo. Só que ele foi lançado e começaram a sair as resenhas reclamando de furos na história, da sua pouca duração e mínima interação – o tal do “filme interativo”.

Por causa destas resenhas, eu decidi não pagar R$250 pelo game – mesmo ansioso para jogar – e esperar o preço cair para impensáveis R$79. O fato é que eu paguei R$69 por ele lacrado (sério, devia estar muito encalhado na loja) e fiquei surpreso porque, na minha opinião, The Order: 1886 é mais do que andaram dizendo por aí.

Os gráficos são o que há de melhor

Para mim, a estética de um game deve ser a cereja do bolo, que dá o toque final ao recheio feito de uma boa história e jogabilidade consistente, só que, em The Order: 1886, os gráficos não são a cereja mas sim o próprio recheio do bolo… claramente o maior esforço (leia-se tempo e dinheiro) da developer foi empregado em entregar uma experiência visual fotorrealista sem precedentes, replicando as nuances das câmeras e lentes de um filme de ação para uma apresentação extremamente imersiva, já que, de certa forma, este é um dos primeiros jogos a pôr à prova o potencial técnico do PlayStation 4.

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E o trabalho da Ready at Dawn é tão impecável que, da primeira vez que joguei, pausei o game tantas vezes para acessar o modo fotografia e admirar cada detalhe na ambientação, cada objeto, textura e reflexo, que acabei perdendo o fio da meada. Como resultado, reiniciei o jogo do zero e desativei o modo fotografia. Não diria que foi ruim apagar meu save e recomeçar, mas é que o jogo é tão visualmente esmagador que você acaba querendo parar a todo momento para apreciar os detalhes.

Depois de finalizar The Order: 1886 sem pausar mais nenhuma vez – uma jornada de cerca de 6 horas –, voltei aos capítulos e fui capturando as imagens que ilustram este post (para um blog de games não há nada melhor do que um modo fotografia).

Queria ter interagido mais

Se alguém disser que The Order: 1886 não quer se parecer com um filme, estará se enganando. Da mesma forma que Beyond: Two Souls (meu review aqui), por exemplo, o jogo da Ready at Dawn se encaixa nesta “nova” categoria de filmes interativos, em que a maior parte do game é composta de longas cutscenes enfeitadas com ocasionais quick time events e o resto é restritivo, permitindo pouca mobilidade e quase nenhuma interação com objetos no cenário; o jogo é extremamente linear, não possibilita muita exploração, faltou dar mais liberdade ao jogador.

Os poucos ítens com os quais o protagonista Sir Galahad pode interagir – normalmente fotografias e documentos – em sua maioria não são de muita serventia. Claro, as notícias dos jornais aprofundam a história do jogo, mas fotografias, cantis de bebida, martelos e até um Sackboy (um detalhe fofo) só existem para serem admirados.

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Foram empregados muito tempo e trabalho em um simples navio, por exemplo, para que ficasse bonito de pegar na mão e admirar

Ao menos as cenas de tiroteio são excelentes! Divertidas, parecidas com Gears of War, são cenários cheios de barreiras de proteção onde você enfrenta grandes grupos de inimigos; os controles respondem com precisão, é fácil acertar o alvo (e economizar preciosas balas) mas a inteligência artificial dos inimigos deixa um pouco a desejar – os licantropos, por exemplo, se movem por trilhas pré-determinadas, acabando com o elemento surpresa.

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Mais do que os olhos podem ver

Não é força de expressão quando dizem que os games estão se tornando mais parecidos com o cinema – The Order: 1886 foi co-escrito com o vencedor do Emmy, Kirk Ellis – mas se isto é ruim, não cabe a mim julgar. O que eu sei é que video games são a mídia perfeita para contar grandes histórias, fazendo o jogador imergir como nenhum livro ou filme consegue fazer. E The Order: 1886 possui uma grande história.

Sim, os gráficos são o melhor aspecto no jogo, mas ao menos o enredo tenso e surrealista não fica para trás em qualidade. Misturando ficção científica, mitologia, cultura popular e história, The Order: 1886 insere o jogador na Londres do século XIX – cerca de 40 anos após a Revolução Industrial, época em que a tecnologia moderna dava seus primeiros passos largos às custas das más condições de trabalho da camada mais pobre da sociedade inglesa – e dá a ele o controle de Sir Galahad, membro da Ordem dos Cavaleiros da Távola Redonda, guerreiro de elite em uma luta secular contra os mestiços (licantropos), mas que se vê em meio a outros conflitos sociais e militares.

As personagens são interessantes e misteriosas, a trama é bem trabalhada a ponto de lhe fazer querer conhecer mais, se aprofundar nas histórias de cada um dos cavaleiros da Ordem e as reviravoltas e revelações mantém o frescor do jogo até o final.

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O laboratório de Tesla

Além disso, a presença de personagens históricos como Nikola Tesla – o inventor da corrente alternada –, que no jogo é responsável por desenvolver as armas e dispositivos usados pela Ordem; do naturalista britânico Charles Darwin e do famoso serial killer Jack o Estripador, dão ao enredo mais humanidade e realismo.

Mulheres com personalidade

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Principalmente depois de ter jogado Bayonetta (leia meu review) é bom jogar um game que não explora o corpo da mulher como decoração. Em The Order: 1886, as mulheres com as quais o protagonista interage – a colega Isabeau (Lady Igraine) e as rebeldes Lakshmi e Devi – estão vestidas da cabeça aos pés (como qualquer soldado) e são personagens fortes, com backstory, e não existem só para que o jogador fique admirando.

Lady Igraine, por exemplo, está sempre um passo à frente do protagonista, por vezes zombando de seu estado físico, e frequentemente recusa ajuda dos homens, incluindo uma cena em que ela enxota um caçador de recompensas. Na minha opinião The Order: 1886 representa bem as mulheres e é importante que, cada vez mais, os games sigam o mesmo modelo.

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Se vale o preço original de R$250 é muito relativo. Ele certamente irá agradar aos jogadores que gostam da ideia de games como filmes interativos (levando gráficos e história ao limite) e se deixam levar pela exuberância gráfica; mas é um pouco mais amargo de engolir para os que estejam acostumados à liberdade de interação e mobilidade, e um enredo mais solto, que depende mais das ações do jogador.

*O primeiro romance estrelado pelo personagem Sherlock Holmes, A Study in Scarlet – que coincidentemente é o que tenho lido no último mês –, foi escrito por Sir Arthur Conan Doyle e publicado em novembro de 1887.

**Embora o assassino, até hoje não-identificado, tenha cometido seus crimes no segundo semestre do ano de 1888; o jogo, portanto, está 2 anos adiantado.

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