Houve uma época em que os maiores heróis dos games não passavam de uns poucos pixels – foi a Era de Ouro* dos video games, quando o Atari 2600 popularizou o hobby levando para dentro de casa os jogos dos arcades.

Eram tempos mais simples, com gráficos primitivos que exigiam um bocado de imaginação do jogador… um quadrado podia ser uma moto, um cavaleiro medieval ou um avião de combate. Diferente de hoje, que os games se assemelham a filmes, como imergir o jogador se na tela só havia uma porção de formas simples? Por meio da arte da capa, claro!

Haunted-House-Atari

Pegue o clássico Haunted House (Atari Inc., 1982), do qual já falei aqui, como exemplo: você está preso em uma casa mal-assombrada cheia de morcegos, aranhas e fantasmas que não passam de um punhado de pixels; enquanto seu personagem é representado por nada mais que um par de olhos – não parece assustador, mas será se você deixar-se levar pela maravilhosa arte de capa criada por Steve Hendrickson (acima). O mesmo acontece com Adventure (Atari Inc., 1979), graças à ilustração de cores vibrantes de Susan Jaekel é mais fácil para o jogador imaginar os labirintos, dragões e o mundo de fantasia na qual está se aventurando.

“Senti que aquele era um produto que precisava de todo o cuidado e atenção como a capa de um disco. Ao mesmo tempo, queria algo que fosse bonito e instrutivo e queria que as artes tivessem consistência, assim imediatamente quando você visse nossa embalagem, saberia que vinha da Atari,” explica Nolan Bushnell, fundador da Atari Inc.

Comparadas aos estilos que surgiriam nas gerações seguintes, as artes das capas dos jogos de Atari são bem peculiares, remanescentes daquela época em que prevaleciam colagens e sobreposições de imagens (como nos pôsteres de Star Wars), a promessa de um mundo cheio de grandes tecnologias e o boom da ficção científica.

A Atari Inc. foi inteligente em contratar artistas talentosos, com experiência em design gráfico, livros infantis e até artes-conceito para a NASA, para criar capas lindas e detalhadas (um total de 136), pois estas contavam uma história, preenchiam a lacuna deixada pelos gráficos rudimentares dos games e instigavam a imaginação do jogador, mais do que qualquer screenshot jamais poderia. Seu trabalho não era ilustrar o jogo, mas definir o tom e o cenário, criar uma atmosfera que conquistasse o jogador. De acordo com o ilustrador Cliff Spohn, autor da capa de Air Sea Battle:

“Os ícones na tela eram tão abstratos que as crianças que estavam jogando poderiam imaginar submarinos, navios e aviões de guerra, e todo tipo de coisa. Então minhas capas despertavam a imaginação [das crianças].”

Há quem não goste das capas dos jogos de Atari porque elas “enganavam” o jogador, que imaginava um game muito mais incrível do que realmente era. Eu penso o contrário… era uma nova indústria na época, tecnologia de ponta, só a idéia de poder jogar na televisão já devia ser de cair o queixo! Na minha opinião, estas ilustrações equivalem à capa de um livro, transmitindo a essência do game mais do que seu visual propriamente dito. Bem à moda do Atari, é preciso muita imaginação para imergir nos jogos, e é exatamente por isso que sou apaixonado por estas capas.

Defender-2

Além disto, mais do que hoje, naquela época as capas dos jogos de Atari 2600 cumpriam outro papel importante: não existiam vídeos de YouTube, revistas e sites especializados, portanto praticamente a única coisa que você sabia de um jogo de videogame ao alcança-lo na prateleira da loja era sua capa. Era o fator principal na sua decisão de compra… uma bela arte que chamasse atenção era preciso para que o consumidor escolhesse comprar um jogo em vez de outro.

Infelizmente, todo este investimento nas capas diminuiu com o passar dos anos, mas a indústria mudou de tal forma que, hoje em dia, elas são muito fiéis ao tom e aos gráficos dos jogos – claro que a atual tendência resulta em um monte de capas iguais, mas isso é assunto para outro post – porém as capas da Atari marcaram época e conquistaram seu espaço na história dos games muito mais do que qualquer outra geração.

UPDATE: Se você se interessa pelas artes de capa dos jogos de Atari e quer conhecer mais a fundo a história e ver de perto cada detalhe das imagens, recomendo o livro The Art of Atari, lançado em outubro de 2016 por Tim Lapetino.

*O período de tempo da Era de Ouro dos games é motivo de debate, mas duas datas podem ser atribuídas ao início: 1971 com o lançamento do primeiro arcade ou 1978 com o lançamento de Space Invaders, até seu fim em 1983 com a quebra da indústria.

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