Tim Schafer é um designer de games americano que ganhou fama durante a década de 90, trabalhando na série Monkey Island e liderando o desenvolvimento de clássicos indiscutíveis como Grim Fandango e Full Throttle – este último meu jogo favorito. Ele não precisa ser apresentado então, mudando de assunto, dos games que joguei que tiveram Schafer envolvido – joguei todos de 1989 a 1999 mas, dos mais recentes, só Broken Age (leia o review) – o único que eu não tinha gostado era Brütal Legend (2009).

O que é estranho, porque o jogo tem tudo para me agradar: motocicletas e hot rods, heavy metal, demônios, Jack Black, Ozzy, Lemmy, Halford e Lita Ford… mas o motivo de eu não ter gostado, em resumo, foi o gameplay. Achei o jogo muito repetitivo, especialmente as stage battles, as freqüentes e desinteressantes corridas contra Fletus e as emboscadas com os Ironheade. E não estou errado, o jogo é repetitivo! Além disto, a constante mudança do gênero hack and slash para real-time strategy para adventure é confusa. Já havia desistido mas, alguns anos depois, decidi dar uma nova chance, analisar com outros olhos… aí acabei me divertindo!

Brütal Legend começa com o roadie Eddie Riggs, interpretado por Jack Black e criado à sua semelhança, sendo esmagado pelo cenário do show em que estava trabalhando. Seu sangue escorre na fivela do cinto, que na verdade é um amuleto de adoração ao deus Ormagöden; este desperta magicamente e carrega Eddie, inconsciente, a um mundo fantástico onde homens são escravos de demônios. Lá ele conhece o heroico Lars, a linda Ophelia e um grupo de rebeldes que pretende livrar a humanidade das garras do perverso Doviculus, e assim se inicia uma jornada épica de batalhas sangrentas, piadas bem colocadas e uma trilha sonora para metaleiro nenhum botar defeito.

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O hot rod Deuce se parece com o carro em Grim Fandango

O que me cativou na segunda (ok, terceira) tentativa de jogar Brütal Legend até o fim foi, finalmente, perceber o tom humorístico típico de Tim Schafer e Jack Black aplicado à história, que incorpora elementos do rock’n’roll no clichê do herói que salva o dia. Tudo em Brütal Legend é baseado em ícones do heavy metal, do cenário ao seu exército composto por headbangers, dos recursos vitais sendo as almas dos fãs aos combos sendo solos de guitarra e o objetivo geral destruir o palco inimigo – é literalmente uma batalha de bandas, mas com machados.

Brütal Legend é a homenagem máxima, com metal em sua alma e o coração tão quente quanto as luzes de um palco.

No protagonista Eddie Riggs dá para perceber o mesmo entusiasmo e paixão pelo heavy metal que vemos nos personagens de Black nos filmes School of Rock (2003) e Tenacious D in the Pick of Destiny (2006); beira o infantil, mas é autêntico e cativante, marca registrada do ator. Na maneira de contar a história do jogo, dá para perceber o estilo único de Tim Schafer, inteligente, brincalhão e até certo ponto poético – a introdução do jogo lembra em partes a introdução do Full Throttle que, diga-se de passagem, estampava na capa a frase “uma aventura heavy metal”. O gênero musical está na alma da dupla.

 

Minha ex-namorada diria que Brütal Legend é “roquista”, um termo pejorativo que dá nome àquelas pessoas para as quais a única verdade é o heavy metal e que todo o resto é lixo. No jogo, a banda Kabbage Boy (para quem Eddie trabalha) é uma caricatura do nu metal, o vilão que escraviza os headbangers é uma caricatura do estilo hair/glam metal e as duas facções que o jogador enfrenta são caricaturas do gênero industrial e da subcultura gótica, estilos normalmente menosprezados pelos “roquistas”.

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Mas o jeito bobo e leve com que Brütal Legend satiriza estas vertentes do gênero musical suaviza a alma “roquista” do jogo criado por Tim Schafer e de maneira alguma insulta os fãs destes estilos. Inclusive, vale comentar que não só o visual gótico que transforma a personagem Ophelia é muito legal, mas sua transformação tem como trilha sonora a clássica Mr. Crowley.

O jogo é legal, mas eu recomendo com um pé atrás… quero dizer, a história é super divertida e um prato cheio de referências ao heavy metal, mas não justifica a pobreza do gameplay se você não for fã do gênero musical, pois este é o maior atrativo do jogo e a única razão pela qual ele é interessante. Brütal Legend funcionaria melhor como um filme do que funciona como game, mas esta é só minha opinião. Para mim valeu a pena revisitar o game e, finalmente, joga-lo do começo ao fim e apreciar o que ele tem de melhor, sua história.

Um comentário sobre ldquo;Com gameplay fraco, Brütal Legend me conquistou pelo bom humor

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