Ambiguidade do sistema de reembolso da compra de video games

Quando eu era criança, pesquisava muito em revistas especializadas, experimentava jogos na locadora ou então comprava aquelas publicações que vinham com CDs cheios de demos, antes de sequer considerar comprar um jogo de video game.

Nunca mudei completamente meu método, mas o mercado já não é mais o mesmo, e uma das mudanças recentes mais significativas – encabeçada pela plataforma Steam – é o sistema de reembolso da compra de um game:

“Você pode pedir o reembolso de quase tudo na Steam – por qualquer motivo. Talvez o seu PC não cumpra os requisitos mínimos; talvez tenha comprado o jogo por engano; talvez tenha jogado por uma hora e simplesmente não gostou do jogo.”

As únicas regras são que o pedido de reembolso seja feito dentro de duas semanas após a compra e que você não tenha jogado o game por mais de duas horas… de resto, está liberado. Lembro que, quando a Valve anunciou o sistema de reembolso, em 2015, eu achei um absurdo! Quero dizer, é óbvio que eu concordo com a devolução do dinheiro nos casos supracitados* ou caso o game esteja lotado de bugs… oferecer a possibilidade de o jogador pedir o dinheiro de volta é ótimo e está em concordância com seus direitos mas, uma vez que você abre essa porta, os espertinhos vão querer se aproveitar.

“Acho que há potencial ali para que experiências curtas sofram [com o sistema de reembolso]. Muitos games indie curtos vendem a um preço mais baixo, mas agora há a preocupação que as pessoas podem ter a experiência completa e pegar seu dinheiro de volta,” afirma o desenvolvedor Sam Beddoes.

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Papers, Please

Talvez você discorde mas bem, há vários jogos que dá pra terminar em menos de duas horas – Papers, Please (3909 LLC, 2013), Gone Home (The Fullbright Company, 2013), Brothers: A Tale of Two Sons (Starbreeze Studios, 2013) e Full Throttle Remastered (Double Fine, 2017) são exemplos de jogos excelentes que podem ser terminados antes do limite estabelecido para reembolso – e isso é sacanagem com a developer.

Mas a verdade é que o tempo foi passando, fui percebendo pontos positivos no sistema de reembolso e mudando minha opinião em relação a ele. Quero dizer, qualquer pessoa que deseje se aproveitar do sistema provavelmente já é a favor da pirataria mesmo, então meio que não faz diferença para as developers. Além disto, dados apontam que o índice de pedidos de reembolso está sempre abaixo dos 10%, o que não é de todo mal.

Os jogadores parecem ter começado a usar o sistema como um meio seguro (e legal) de experimentar o jogo, como eu fazia nas locadoras na infância, e se eles se sentem mais seguros para arriscar – experimentar games que, normalmente, deixariam passar porque não é o estilo que jogam mais, ou porque é muito conceitual, ou porque é de nicho, ou qualquer outro motivo –, a longo prazo este hábito pode acabar gerando mais vendas para as developers… mesmo com alguns reembolsos, ainda sai muito mais barato do que desenvolver uma demo!

O que as developers podem fazer

Na minha opinião, o mais importante é descrever o game da melhor forma possível. Mesmo sentindo-se seguros de experimentar os jogos, se na hora de pedir reembolso o jogador especificar que é porque o game “não é divertido” (e diversão é um conceito que muda de pessoa pra pessoa), acaba sendo ainda pior pro desenvolvedor. Uma boa descrição pode reduzir a porcentagem de devoluções.

Adicionar personagens/itens desbloqueáveis e até finais alternativos podem inspirar o jogador a jogar mais de uma única vez, fazendo valer o dinheiro investido. Se o jogador chegou até o fim do game dentro das duas horas permitidas para pedir reembolso mas, ainda assim, sentiu vontade de jogar novamente, dificilmente irá pedir a devolução do dinheiro.

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Selfie : Sisters of the Amniotic Lens

Dylan Barry, desenvolvedor de Selfie : Sisters of the Amniotic Lens (2015), sugere incluir Steam Trading Cards, colecionáveis que são conquistados nos jogos e que podem ser trocados entre amigos ou até mesmo vendidos em um mercado on-line dentro do aplicativo. Assim, o jogador consegue até recuperar um pouco do dinheiro que gastou com a compra do game!

Talvez a Valve só precise revisar o tempo permitido para pedir reembolso, pois eu acredito que duas horas é um pouco de exagero… uma hora é o suficiente para o jogador conhecer as mecânicas e o estilo do jogo – e decidir se lhe agrada ou não – especialmente jogos indie; ou então, que façam o sistema ser mais flexível, adaptando-se às diferentes situações das developers e dos jogos disponíveis em sua biblioteca.

Você já usou o sistema de reembolso da Steam, ou de outros aplicativos? Eu gostaria de saber sua opinião, deixe uma mensagem na sessão de comentários.

*Minha amiga recentemente comprou South Park: The Stick of Truth (Obsidian Entertainment, 2014) por engano, já que a Steam só disponibiliza a versão para Windows mas ela tem um Mac. Para ela, o sistema veio bem a calhar.

Flávio

Me formei na faculdade de Design em 2007, sou apaixonado pela minha profissão, por rock'n'roll, cozinhar, jogar video game, por Star Wars e hamburger. Colaborador do Greenpeace e Médicos Sem Fronteiras.

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