Este post não é sobre o mercado cinza e os consoles e games vendidos sem nota fiscal nas lojas do centro da cidade, mas sim sobre um assunto que vai bem além do nosso controle: a procedência da matéria-prima usada na fabricação dos produtos, e todo processo de manufatura envolvido na produção dos consoles com os quais nos divertimos no dia-a-dia.

É do conhecimento de todos que a indústria dos video games, já há alguns anos, se tornou a maior potência econômica no ramo do entretenimento mas, como dizia o falecido Tio Ben, “com grande poder vêm grandes responsabilidades” e, como em qualquer indústria, tal crescimento implica em novos desafios e problemas e ser enfrentados, que expõem um lado mais sombrio da produção de games e eletrônicos em geral.

Como qualquer aparelho eletrônico, os consoles de video game começam sua vida como minérios debaixo da terra, garimpados e vendidos a exportadores, que então repassam-nos para fundições, que por sua vez produzem os materiais básicos usados pelos fabricantes de componentes, que criam as peças que entrarão na linha de produção onde o video game será feito. Este longo processo, embora interessante, tem todo tipo de gente envolvida, circunstância perfeita para que atividades suspeitas possam acontecer.

Olho-vivo na produção

Com a produção terceirizada em países como a China, os fabricantes precisam se certificar que as fábricas tratem seus empregados honestamente, o que nem sempre acontece. Você se lembra dos casos de suicídio em uma fábrica da Foxconn, relacionados à produção do iPhone? Bom, em 2012, surgiram reportagens de que a Foxconn empregava estudantes de 14 a 16 anos para fabricar Wii U’s – a prática, em si, não era ilegal, já que era parte de um programa de treinamento sancionado pelo governo; mas as reportagens indicavam que os gerentes da fábrica ameaçavam demitir ou expulsar os alunos, se eles não trabalhassem um turno noturno de 12 horas. No ano seguinte, a mesma fábrica se envolveu em um escândalo semelhante, desta vez envolvendo a fabricação do PlayStation 4.

Foxconn plans to create up to 400,000 new jobs

Você pode imaginar que fabricar em outro lugar, que não a China, seja a solução, mas não é tão simples assim. A começar que o país asiático não é o único metido com trabalho forçado – é só pesquisar o que acontece no Brasil – e, apesar de tudo, a China ainda é o melhor pólo de produção de baixo custo do mundo. Além disso, os chineses têm um registro de segurança melhor do que qualquer outro país com custo de produção semelhante, e contam com uma força de trabalho gigantesca; por isto, as fábricas chinesas produzem mais rápido que quaisquer outras.

Isso não é desculpa, claro, mas lidar com más condições de trabalho parece fichinha perto do desafio que é rastrear minerais de conflito – se você não sabe o que são “minerais de conflito”, pode pesquisar na internet ou assistir ao filme Diamantes de Sangue (2006), estrelado por Leonardo DiCaprio, para ter uma ideia. Voltando ao assunto, alguns dos minérios usados na fabricação dos consoles de video game (como estanho, tântalo, tungstênio e ouro) podem vir da República do Congo, país que já vive décadas de uma guerra civil que já matou quase 6 milhões de pessoas! Muitas das minas da região são operações artesanais que, se não forem protegidas pelo exército congolês, acabam capturadas e escravizadas por milícias terroristas que lucram com a atividade mineradora.

Conflict-Minerals-Rebels-and-Child-Soldiers-in-Congo-
Assista a este documentário da Vice

Nos últimos anos, medidas têm sido tomadas para combater o fornecimento de minerais de conflito, e tanto os Estados Unidos quanto a União Européia passaram a exigir que as empresas investiguem suas redes de fornecimento afim de eliminar atividades ilegais. Tanto a Sony quanto a Microsoft já revisaram seus fornecedores e até publicaram os dados; além disso, a Microsoft está diretamente engajada na erradicação do trabalho infantil nas mineradoras. Já a Nintendo… em 2012, o Enough Project ranqueou o progresso das 24 maiores fabricantes de eletrônico no combate ao uso de minerais de conflito, e a Big N ficou em último lugar! Claro que a empresa japonesa melhorou bastante nos últimos 5 anos, mas até hoje prefere manter segredo sobre sua rede de fornecimento.

O que fazer, então?

A produção global de consoles é essencial para atender a demanda e para o crescimento da mídia como um todo, então é fundamental que os fabricantes continuem se esforçando para melhorar as condições de trabalho nas fábricas e banir o uso de minerais de conflito – aliás, isto é lição de casa para todas as indústrias. Outra coisa que as fabricantes de consoles podem fazer é dar às fábricas na China um prazo maior de produção, o que evitaria atrasos e diminuiria os motivos para elas engajarem em atividades suspeitas.

Nós, como consumidores, podemos contribuir ficando um pouco menos ansiosos para comprar as últimas novidades do mundo dos games: pré-vendas nas casas dos milhões e filas quilométricas nas portas das lojas no dia do lançamento, são estímulos para que empresas como Sony, Nintendo e Microsoft sobrecarreguem as fábricas com pedidos.

Além disso – e aqui serei um tanto polêmico – nós poderíamos nos comprometer a pagar um pouquinho mais por um console ético. Sim, video games já custam bem caro, mas estimativas sugerem que fabricar consoles livres de matéria-prima oriunda de zonas de conflito ou trabalho forçado, custaria somente alguns centavos a mais. É um preço bem baixo a se pagar, para apaziguar os problemas presentes na indústria – tanto os de hoje, quanto os que surgirão no futuro.

Pense nisso.

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