Uma viagem pela costa italiana em Wheels of Aurelia

Foi a imagem da tela de título que me chamou a atenção para Wheels of Aurelia (Santa Ragione, 2016), aventura narrativa que se passa na Itália no final dos anos 1970. O nome do jogo foi tirado da Via Aurelia, antiga estrada construída por volta de 241 a.C. com o objetivo de apoiar a expansão romana. As partidas acontecem com a protagonista Lella, uma mulher ousada e corajosa, e sua colega Olga dirigindo pela famosa estrada a caminho da França, conversando sobre assuntos diversos e encontrando caronistas pitorescos.

Contexto é muito importante em Wheels of Aurelia. A narrativa gira em torno de diversos acontecimentos históricos, sociais e políticos ocorridos na Itália do final dos anos 1960 ao início dos 80, período que ficou conhecido como os Anos de Chumbo. Foi uma época de conflitos, cheia de atos de terrorismo realizados tanto pelos grupos de direita quanto de esquerda, e que testemunhou inclusive o ressurgimento de militantes anti-imigrantes, neofascistas e comunistas. O conceito é ousado e algo que provavelmente não deve empolgar muitos jogadores, mas também não deve ser ignorado.

Wheels of Aurelia é um jogo bem minimalista, no que se refere a gameplay. Você escolhe um carro e sai em viagem com a amiga Olga. O carro se movimenta sozinho, e todo controle que você tem sobre ele é fazer curvas, evitando o trânsito, e aumentar a velocidade (se quiser). Estas mecânicas não têm consequência nenhuma, você pode dirigir tão mal quanto quiser, e nada de ruim vai acontecer… a verdade é que parece que os desenvolvedores só adicionaram o controle do carro pra parecer que o jogador tem mais coisas pra fazer.

Mas não me leve a mal, Wheels of Aurelia tem suas qualidades, e o que realmente importa são suas decisões: as estradas que você pega, que levarão a cidades diferentes, que podem ou não estar no caminho do seu objetivo; as pessoas para quem você escolhe dar carona, que tornam o game mais variado e interessante; e as opções de diálogo, que é o que trarão consequências reais em sua jornada, e revelarão mais sobre Lella e seu passado.

Embora as partidas durem, em média, de 15 a 30 minutos (o que deve fazer torcer o nariz de alguns), o jogo possui 16 finais diferentes e, embora eu ainda não tenha visto todos até a publicação deste post, tenho revisitado Wheels of Aurelia frequentemente, sempre apresentando-o a amigos, o que torna a jornada mais bacana, já que acompanho as escolhas deles.

Graficamente, o jogo é simples e blocado, mas tem charme e uma paleta de cores pastel que, por algum motivo, parece encaixar-se perfeitamente com o que eu imagino da Itália*. A trilha sonora, criada sob medida, é cativante e animada, combinando com a ambientação e andamento do game.

Em resumo, Wheels of Aurelia é um jogo sobre a jornada, não o destino. Se você aprecia um enredo bem estruturado, personagens coloridos e uma atitude mais relaxada, que provoca o jogador a refletir sobre eventos de escala global, passados e presentes, este jogo deve agradar – eu sei que eu gosto de descobrir experiências que ampliem meu leque de conhecimentos em video games. 🙂

*Interessante apontar que, em 1981 (logo após o ano em que se passa Wheels of Aurelia), surge o Grupo Memphis, formado por designers e arquitetos italianos que moldaram a “estética dos anos 80”, cheia de cores vibrantes e padrões geométricos, um contraste com a paleta de cores do jogo.

Flávio

Me formei na faculdade de Design em 2007, sou apaixonado pela minha profissão, por rock'n'roll, cozinhar, jogar video game, por Star Wars e hamburger. Colaborador do Greenpeace e Médicos Sem Fronteiras.

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