A milenar história do dado

Você tem dado em casa?

Durante a infância, tive todo tipo de jogos de tabuleiro – meus favoritos eram Detetive (Estrela, 1977), Jogo da Vida (Estrela, 1986) e Banco Imobiliário (Estrela, 1944)* – mas não conhecia o que as pessoas jogavam antigamente. Eu sabia que o xadrez era jogado na antiguidade, graças à uma pintura do renascentista Lucas van Leyden, de 1508, que mostra um grupo de homens jogando xadrez, e diversas obras europeias mostram jogos de cartas, mas nunca tinha pesquisado sobre a história dos dados, até agora. Fundamentais em jogos de tabuleiro, os dados são onipresentes em todas as culturas e muito mais antigos do que a gente imagina. De estudos matemáticos a Dungeons & Dragons (Gary Gygax e Dave Arneson, 1974), estes poliedros evoluíram junto com a civilização e têm uma história interessante.

A criação dos primeiros dados

O dramaturgo grego Sófocles afirmou, certa vez, que o dado foi inventado pelos gregos; já Heródoto declarou que o objeto é invenção dos lídios; mas a “invenção” já foi descreditada por numerosas descobertas arqueológicas demonstrando que os dados já eram usados por sociedades ainda mais antigas. Há evidência de dados encontrados em tumbas egípcias datadas de 4 mil anos mas, graças àquelas descobertas, é possível traçar sua história a até 8 mil anos atrás, feitos com objetos como caroços de fruta, pedras e conchas.

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O “Jogo Real de Ur“, descoberto por Sir Leonard Woolley em 1920

O tataravô dos dados como conhecemos hoje é o tálus, osso que compõe o tornozelo dos mamíferos e tem um formato que lembra ligeiramente um cubo, que era usado em rituais xamanísticos de adivinhação. Os antigos, mais tarde, chegaram a esculpir os tálus para deixa-los ainda mais cúbicos, uma versão rudimentar do famoso dado de seis lados. A primeira vez que dados foram usados em um jogo de tabuleiro – um dado piramidal de quatro lados – foi por volta de 2.600 a.C., na antiga Mesopotâmia, em um jogo hoje conhecido como “Jogo Real de Ur“, um dos tabuleiros completos mais antigos já encontrados. O dado de seis lados marcados com bolinhas (como conhecemos hoje) também surgiu na Mesopotâmia, mais de mil anos depois.

A primeira vez que um texto escrito mencionou um jogo de azar usando dados foi no épico clássico indiano Mahābhārata, obra com mais de 74 mil versos em sânscrito, que os historiadores datam de cerca de 400 a.C. No poema, o príncipe Yudhisthira é passado para trás em um jogo de azar semelhante ao ludo, levando-o a perder todas as suas posses, seu império, sua riqueza, seus irmãos e até sua esposa.

Os dados chegam às mãos do povo

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O mais antigo dado de 20 lados. Este dado da Roma antiga foi vendido em um leilão, em 2013, por quase US$18 mil.

Muito embora os jogos de azar fossem proibidos na época, o dado de 20 lados, tão íntimo dos jogadores de D&D, foi inventado, acredite, na Roma antiga, por volta do ano 100 do calendário gregoriano. Apesar da proibição, é sabido que diversos imperadores romanos eram bem chegados em uma jogatina, incluindo o imperador Cômodo, que possuía uma sala de jogos em seu palácio. Mas foi só na Europa medieval, por volta do século XI, que os dados se popularizaram, com a invenção de um jogo inglês chamado Hazard, jogado tanto pelas classes altas quanto pelo cidadão comum. Diz-se que o Rei Henrique VIII da Inglaterra era ávido jogador de dados mas, em uma partida descontrolada, apostou e perdeu os sinos da Catedral de São Paulo!

O popular Hazard chegou até o Novo Mundo, no final do século XV, com a descoberta da América pelo explorador italiano Cristóvão Colombo. Uma forma simplificada do jogo era um dos poucos lazeres dos escravos, que apelidaram-no de Craps, hoje o mais popular jogo de dados nos Estados Unidos e presente em qualquer cassino. Durante o século XVI, os dados cumpriram papel fundamental nos estudos dos matemáticos italianos Gerônimo Cardano (1501 – 1576) e Galileu Galilei (1564 – 1642), que desenvolveram teorias de probabilidade matemática envolvendo jogos e apostas – até então, acreditava-se que o resultado tirado nos dados era ação indireta dos deuses.

Dados como conhecemos hoje

Os dados modernos de seis lados – que antigamente eram feitos com ossos ou marfim, bronze, diversas pedras como ágata, quartzo, ônix, alabastro, mármore, azeviche e até materiais como porcelana e âmbar – são fabricados usando celulose ou plástico, e há dois tipos distintos: o dado perfeito ou dado de cassino, que possui cantos e arestas perfeitamente retos, normalmente são feitos à mão e têm margem de erro de 0.0026 mm; e o dado comum com cantos arredondados, moldado em máquina com pouca precisão, e usado em jogos de tabuleiro para jogar com amigos e família, por isto não precisa ser perfeito.

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Dados (bastante usados) da primeira edição de Dungeons & Dragons

No ano de 1906, o polonês Albert Friedenthal, então residente da cidade de Oakland, California, patenteou o primeiro dado de dez lados, que se tornaria popular com Dungeons & Dragons, quase um século mais tarde. Lançado em 1974, o famoso RPG vinha com uma coleção de dez dados, que incluía dados com 4, 6, 8, 10, 12 e 20 lados – hoje, o kit básico possui sete dados. Os dados de D&D são os mais comumente usados no universo de RPG, mas se tornaram base para inúmeros outros jogos de tabuleiro. Antes do lançamento de D&D, era padrão usarem somente dados de seis lados, muito embora a variedade de lados já existisse há séculos (como você viu neste post). Dungeons & Dragons popularizou tanto o uso dos outros tipos de dados que hoje, se você ver alguém com dados poliédricos por aí, de cara já sabe que a pessoa é gamer!

ZocchihedronTalvez a mais recente novidade no mundo dos dados tenha sido o lançamento do Zocchihedron, um dado com absurdos 100 lados, inventado pelo americano Lou Zocchi e lançado em 1985. Além disto, há inúmeras variações no que é impresso nas faces dos dados, muitas vezes personalizados especialmente para servir às regras de um jogo de tabuleiro específico.

Quem diria que um simples objeto que a gente conhece tão bem, teria uma história tão antiga e rica? Seja em mesas de cassinos ou objeto de estudos matemáticos, um bom jogo pode começar com um par de dados, e cada lançamento é uma porta para infinitas possibilidades.

Fontes:


*”Detetive” é baseado no jogo original britânico Cluedo (Weddingtons, 1949) e foi licenciado pela americana Parker Brothers, que publicou sua versão Clue, pela primeira vez, em 1950. “Jogo da Vida” é baseado na versão de 1960 de um jogo criado pelo americano Milton Bradley em 1860, chamado The Checkered Game of Life, o primeiro tabuleiro familiar popular nos Estados Unidos. “Banco Imobiliário”, o jogo mais vendido da Estrela, é baseado no clássico Monopoly (Parker Brothers, 1935) que, por sua vez, foi inspirado em um jogo de tabuleiro chamado The Landlord’s Game (Elizabeth Magie, 1904), criado para ensinar os fundamentos do “imposto único” de Henry George.

Flávio

Me formei na faculdade de Design em 2007, sou apaixonado pela minha profissão, por rock'n'roll, cozinhar, jogar video game, por Star Wars e hamburger. Colaborador do Greenpeace e Médicos Sem Fronteiras.

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