Outro dia mesmo publiquei uma resenha do Scott Pilgrim vs. The World: The Game (Ubisoft Montreal, 2010), jogo que conta com uma trilha sonora super maneira de autoria do grupo novaiorquino Anamanaguchi, e que foi lançado junto ao filme homônimo, cuja narrativa gira muito em torno do rock de garagem. Com tanto game e música permeando minhas leituras, pensei: “Por quê não escrever um post sobre a influência dos videogames na música popular*?”

O que começou nos anos 1970, com sons mecânicos e sintetizados que preenchiam os salões de fliperamas, evoluiu para trilhas sonoras complexas e aclamadas pela crítica, algumas veneradas por fãs de games como verdadeiras obras de arte, tal qual a da série Final Fantasy (Square Enix, 1987-2018), composta por Nobuo Uematsu e executada por orquestras em salões de concerto do mundo todo.

A influência de Koji Kondo

Se tem um cara pioneiro na evolução da “música de videogame” como elemento narrativo, este cara é Koji Kondo. Primeiro sound designer dedicado da Nintendo, o japonês inovou ao compor as famosas trilhas de Super Mario Bros. (Nintendo, 1985) e The Legend of Zelda (Nintendo, 1986), ambos para o NES.

Kondo

Ele decidiu que a música deveria enfatizar a experiência de jogo e contribuir para o gameplay. Como resultado, Kondo criou momentos de tensão e catarse, frequentemente mudando o tom da música para combinar com a ação acontecendo na tela, e conceitualizando os vários temas das fases como parte de uma única e coerente melodia. A trilha completa de Super Mario, por exemplo, possui poucos minutos, mas é suficiente para ambientar todo o game, e acompanhar o jogador ao longo de suas muitas e muitas horas de quebrar blocos e esmagar tartarugas.

Boa música se torna indispensável

O trabalho de Kondo abriu as portas para um novo jeito de fazer música de videogame. As grandes developers passaram a contratar jovens compositores que buscavam desafios e os jogos, conforme a concorrência foi aumentando, passaram a se apoiar também na trilha sonora como diferencial – originando vários dos temas clássicos que amamos.

Hoje em dia, acontece uma fusão até meio óbvia… de um lado, jogos como Grand Theft Auto (Rockstar, 1997-2013) e Wipeout 2097 (Psygnosis, 1996) possuem trilhas sonoras formadas por sucessos da música popular, licenciadas pelas gravadoras; por outro lado, os videogames se tornaram um espaço de experimentação, com artistas como Skrillex e Trent Reznor compondo para a mídia. As séries Guitar Hero (Harmonix, 2005-2015) e Just Dance (Ubisoft, 2009-2017), por sua vez, fazem da interação com a trilha sonora o foco da jogabilidade.

A primeira vez que música pop foi licenciada para um jogo, no entanto, foi em Journey Escape (Data Age, 1982), em que o jogador precisava ajudar a banda de rock Journey – que você conhece do clássico Don’t Stop Believin’ – a escapar de groupies e fotógrafos e embarcar em sua nave espacial. Mais tarde, o rei do pop Michael Jackson emprestou suas composições para Moonwalker (Sega, 1990), jogo baseado no filme homônimo, cuja trilha é composta de diversas faixas do álbum Bad, de 1987.

Além disso, o caminho inverso foi trilhado e os games foram inspiração para canções nos anos 80 e 90, como Arkade Funk do grupo Trouble Funk, e Pac-Man Fever de Buckner & Garcia, além, é claro, de dar à luz o subgênero da música eletrônica “chiptune”.

Na série documental Diggin’ in the Carts, produzida pela Red Bull Academy em 2014, há um trecho em que Taku Inoue, conhecido por seu trabalho na trilha sonora de Tekken (Namco, 1994), conta como o jogo de luta foi o primeiro contato de muita gente com a dance music, o que incentivou-o a trabalhar ainda mais duro para garantir que suas batidas fossem cativantes. A série Tony Hawk’s Pro Skater (Activision, 1999-2015), por exemplo, foi meu primeiro contato com a música punk, gênero que ajudou a moldar minha personalidade e que ouço até hoje.

Nostalgia pura

Embora não seja do meu feitio ouvir música de videogame como passatempo, conheço gente que gosta, de verdade, de colocar as trilhas de seus jogos favoritos para tocar de vez em quando, seja para curtir uma viagem de carro ou se concentrar no trabalho.

No entanto, como amante e colecionador de games e discos de vinil, não me aguento de vontade de comprar todas as prensagens da Data Discs, selo dedicado exclusivamente à remasterização e distribuição de trilhas sonoras de games clássicos; ou então os discos da iam8bit, que trazem trilhas clássicas e contemporâneas para a agulha do toca-discos.

Metal-Slug-Vinil

As trilhas sonoras dos games progrediram e evoluíram para uma indústria por si só, território fértil para desenvolver-se e crescer ainda mais. Com compositores brilhantes experimentando e usando métodos inovadores de fazer música para novas experiências interativas, a “música de videogame” se mostra uma forma de arte que ganha cada vez mais respeito, ano após ano.

Você concorda que videogames e música têm tudo a ver? Acredita que há espaço para experimentação na junção das duas mídias? Qual sua trilha sonora favorita? Comente!

*Com “popular” e “pop“, me refiro a qualquer gênero musical que atinga o público mainstream, toque na rádio e faça sucesso.

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