Uso de inteligência artificial no desenvolvimento de games

Li recentemente notícias de cientistas da universidade Politecnico di Milano, que desenvolveram uma inteligência artificial capaz de criar fases de Doom (id Software, 1993) tão bem-feitas e divertidas, que consegue enganar outra inteligência artificial, fazendo-a acreditar que as fases foram desenvolvidas por um game designer.

Em resumo, o que a equipe da universidade fez, foi utilizar uma técnica de deep-learning chamada rede adversarial generativa que, através de dois algoritmos de inteligência artificial, estudou milhares de fases diferentes de Doom (a maioria criada pela comunidade de fãs) e aprendeu as características que tornam-as divertidas de jogar. A primeira IA tinha como objetivo criar as fases; a segunda, tinha como objetivo decidir se as fases apresentadas tinham sido criadas por um computador ou um ser humano, baseado nos padrões que aprendeu com a gigantesca base de dados que ambas IA estudaram.

doom-level-generation

O lance é que, depois de dezenas de milhares de tentativas, a primeira inteligência artificial conseguiu enganar a segunda, o que significa que as fases geradas pela IA eram bem divertidas. Considerando que “diversão” é um conceito abstrato, podemos afirmar que a IA conseguiu, de certa forma, compreender o que é divertido para um ser humano. E aí vem a questão: se uma máquina tornou-se capaz de criar fases de um jogo de videogame, tão bem-feitas quanto as desenvolvidas por um game designer experiente, será que o emprego deste está por um fio?

Pra mim, não. Nem de longe. Muito pelo contrário! Do meu ponto de vista, uma inteligência artificial capaz de desenvolver fases de um jogo de videogame com qualidade comparável a de um game designer deverá trazer benefícios para os games.

Criação de conteúdo é uma das tarefas mais dispendiosas do processo de desenvolvimento de um game – é muita grana e muito tempo investidos, e quem trabalha com level design também depende de testes com pessoas jogando as fases e dando feedback. Se a inteligência artificial puder tomar as rédeas dessa tarefa, os designers poderão se concentrar em aspectos mais significativos do projeto; além disto, estúdios pequenos poderão tirar vantagem da IA para agilizar o processo de desenvolvimento e reduzir custos. Automatizar (ou pelo menos auxiliar) a criação das fases será uma grande conquista – os game designers poderão ensinar a IA a criar de acordo com as especificações que eles quiserem –, deixando a equipe de criação com mais investimentos para trabalhar na história, em character design, inovações na jogabilidade, etc.

Geração procedural

De certa forma, os computadores sempre foram capazes de criar as fases de um jogo de videogame. Pense em jogos de RPG do gênero roguelike, por exemplo, em que as fases são geradas aleatoriamente no início de cada partida; ou então Diablo II (Blizzard North, 2000), cujos dungeons mudam de forma o tempo todo. Na verdade, a geração procedural é usada nos games há mais de 30 anos, como no RPG Akalabeth: World of Doom (Richard Garriott, 1980), no clássico Sim City (Maxis, 1989) e até no jogo de combate Worms (Team 17, 1995), que usavam seeds para gerar as fases. Os seeds, resumidamente, são valores pseudoaleatórios que permitem a máquina gerar os mapas algoritmicamente. E nem precisamos ir tão lá pra trás, já que o recente Spelunky (Derek Yu, 2008) também gera as fases proceduralmente.

A diferença é que, dessa maneira, o computador só obedece a uma série de regras pré-estabelecidas pelos designers, o que permite equilibrar aleatoriedade e previsibilidade. Uma inteligência artificial capaz de criar as fases do zero, irá levar o conceito de roguelike e a geração de fases a um novo patamar porque, diferente de só interpretar algoritmos, a IA estará explorando as possibilidades de design.

Eu sou grande apoiador da adoção de inteligência artificial para agilizar e facilitar os tantos processos do nosso dia-a-dia, seja um assistente pessoal com quem nos comunicamos pelo smartphone, seja um computador capaz de nos auxiliar no trabalho. Além disto, a inteligência artificial já é usada, desde o início da história dos games, para beneficiar a experiência de jogo, então por que não usá-la também no desenvolvimento? E você, como enxerga o emprego de IA no desenvolvimento dos games? Deixe seu comentário.

Flávio

Me formei na faculdade de Design em 2007, sou apaixonado pela minha profissão, por rock'n'roll, cozinhar, jogar video game, por Star Wars e hamburger. Colaborador do Greenpeace e Médicos Sem Fronteiras.

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