A arte da capa é um dos elementos mais importantes de um jogo de videogame pois, tal qual num livro, deve comunicar e instigar o jogador sobre seu conteúdo, faze-lo querer consumi-lo. Ao longo dos 40 e poucos anos de história da indústria, dá pra perder a conta de quantas capas bem-feitas foram criadas por vários artistas, enquanto outros… bem, preferiram pegar um atalho.

Como já dizia o falecido comunicador da TV brasileira Abelardo Barbosa, em sua genial paródia de Lavoisier: “nada se cria, tudo se copia” e, com capas de jogos de videogame, não é diferente. De screencaps de filmes a páginas de quadrinhos e até obras de arte, às vezes as “inspirações” vão um pouco além da conta, e se tornam apropriação. O assunto aqui não são designs e personagens inspirados, mas imagens específicas que podem ter sido traçadas, digitalizadas ou usadas como referência direta.

Estrelas de filmes de ação e personagens icônicos

Talvez o caso mais comum, especialmente lá atrás nos anos 80, eram artistas buscando referência em filmes de ação e aventura para criar suas ilustrações e, com a crescente popularidade dos run-and-gun, figurões dos filmes de brutamontes eram modelos óbvios.

A Konami certamente tem os exemplos mais conhecidos – você vai ver mais tarde – mas, considerando que, na época, produções cinematográficas eram imensamente mais populares que videogames e as leis de direitos de imagem não eram tão bem estabelecidas (ou respeitadas), não era exclusividade dos artistas da developer japonesa terem em suas mesas fitas de VHS de seus filmes favoritos, para se inspirar a criar aquela capa mais bacana e, quem sabe, pegar carona no sucesso dos longa-metragens.

O austríaco Arnold Schwarzenegger era o rei das poses de filmes de ação e, por isto, o favorito dos ilustradores. Sem sequer tentar disfarçar a aparência do ator, Luis Royo copiou o pôster do filme Commando na hora de criar a capa do jogo Navy Moves (Dinamic Software, 1988). O mestre das artes marciais acrobáticas Jackie Chan também teve sua semelhança estampada em capas de alguns games… o arcade Silent Dragon (Taito, 1992) não tinha capa, claro – era um gabinete –, mas destaca-se porque a tela título do game mostrava os dois protagonistas Joe e Lee, traçados em cima de poses do ator hong-konguês.

Responsável por quebrar com os estereótipos asiáticos em produções hollywoodianas, o ator ásio-americano Bruce Lee tornou-se um ícone do século XX graças à sua influência no cinema. Não por coincidência, teve sua imagem – e principalmente seu estilo único de kung-fu – copiada em inúmeros jogos de luta, como nos personagens Fei Long (Street Fighter), Forest e Marshall Law (Tekken), e Jann Lee (Dead or Alive) por exemplo. O ator também foi “homenageado” na capa da adaptação do arcade Yie Ar Kung-Fu (Konami, 1985), um dos jogos que ajudou a estabelecer os parâmetros para o gênero luta.

A capa de Duke Nukem 3D (3D Realms, 1996) foi criada por Robert Grace mas é totalmente inspirada na arte de divulgação do clássico Army of Darkness, dirigido por Sam Reimi em 1992 – neste caso até faz sentido, já que até o protagonista do jogo repete algumas falas do filme.  A quem interessar saber, quando John Bolton criou o cartaz do filme, inspirou-se em um clichê hoje conhecido por “king of the mountain”, remanescente das capas dos quadrinhos de Conan the Barbarian, em que o herói musculoso segura orgulhosamente sua arma, com uma mulher agarrada à sua perna.

Mad Max 2: The Road Warrior é um filme esteticamente tão influente que, até hoje, mundos pós-apocalípticos são inspirados no clássico. Em uma tentativa de atrair fãs do filme, a capa de Road Raider (Gray Matter Inc., 1988) mostra o protagonista traçado fielmente sobre a imagem do ator Mel Gibson. Tão icônica também é a imagem de Hulk Hogan no mundo da luta livre, que o artista da capa de Wrestling Superstars (Codemasters, 1993) nem pensou duas vezes antes de estampar o jogo com um lutador bastante “parecido”.

Do mundo dos quadrinhos, as referências mais amplamente conhecidas, coincidentemente, vêm da mesma minissérie do Justiceiro, famoso anti-herói do universo Marvel, aqui ilustrado por Mike Zeck. A primeira, mais óbvia, está na capa criada pelo mestre do aerógrafo Bob Wakelin – famoso por seus trabalhos para a desenvolvedora britânica Ocean Software – para o jogo Green Beret (Konami, 1985); a segunda é uma interpretação mais livre, na capa de Cosmic Wartoad (Denton Designs, 1985).

Konami… ah, Konami

Antes de mais nada, temos que reconhecer que a Konami possui uma coleção de belas capas, especialmente na geração 8-bit. O estúdio conhece o poder de marketing de uma boa capa e, de quebra, seus jogos também eram tão bons quanto o trabalho do artista gráfico. Infelizmente, porém, nem a gigante japonesa escapou de alguns copy/paste:

Castlevania (Konami, 1986) e Castlevania II: Simon’s Quest (Konami, 1987) são ótimos exemplos mas, talvez, não tão fáceis de notar a “inspiração”, já que ambas são de artistas obscuros até para alguns de nós geeks. A capa do primeiro jogo foi visivelmente inspirada pelo trabalho do americano Frank Frazetta* (de quem meu pai é muito fã), cuja carreira esteve em auge durante os anos 70 e 80, em que criou cartazes de filme, capas de discos e quadrinhos de destaque. A outra, mais óbvia, foi praticamente copiada da capa do livro-campanha Ravenloft de Dungeons & Dragons, publicado em 1983 e ilustrado por Clyde Caldwell.

*Diga-se de passagem, essa mesma ilustração do Frazetta, intitulada The Norseman, foi copiada em inúmeras outras capas de games de fantasia medieval, como Rastan Saga II (Taito, 1988), Dragon Slayer (Nihon Falcon, 1984) e Black Tiger (Capcom, 1987) por exemplo.

Outros dois dos games mais aclamados da Konami também têm casos de apropriação em suas respectivas capas. A arte da capa do clássico Metal Gear (Konami, 1987), lançado originalmente para MSX2, foi feita pelo próprio Hideo Kojima, praticamente traçada em cima do sargento Kyle Reese d’O Exterminador do Futuro. Já a capa de Contra (Konami, 1987), também por Bob Wakelin, é um pot-pourri de cenas de filmes de ação! O artista, ao menos, nunca negou que forçou a barra na “inspiração” para a capa de Contra:

“O jogo parecia uma cópia descarada de Predador e Alien, então forneci uma imagem no estilo Predador e Alien – com poses roubadas de Arnie [Schwarzenegger] em Predador,” confessa Wakelin.

Por quê não copiar outro jogo?

Dizem que a cópia é a maior das homenagens, mas não sei se concordo. Final Fight (Capcom, 1989) já estava nos fliperamas a dois anos quando o concorrente da Sega foi lançado. Ainda assim, o artista responsável pela capa de Final Fight 2 (Capcom, 1993) decidiu que seria uma boa ideia aproveitar referências das capas de Streets of Rage e Streets of Rage 2 (Sega, 1991/92)! Talvez o cara fosse fã, sei lá.

A Sega também não fica isenta de culpa, claro. Não dá pra negar que todas essas são capas muito legais*, mas a arte criada por Greg Winters para o primeiro Streets of Rage já tem, logo de cara, inspiração em dois filmes de artes marciais: Sister Street Fighter, de 1974 e Gymkata, de 1985.

Eric and the FloatersA capa de Eric and the Floaters (Hudson Soft, 1983), em sua versão para o MSX, é uma óbvia tentativa de copiar a capa de Doom com um protagonista estilo Indiana Jones. Acredite se quiser, mas Eric and the Floaters é o nome europeu do primeiro título da série Bomberman.

*Sou fã confesso do Mike Haggar chegando com os dois pés no peito do mané na capa do Final Fight 2.

Você achava que ninguém ia perceber?

Todos os exemplos citados neste post, até agora, uma parcela ínfima do que há por aí (e acredite, dava pra citar mais um monte de coisas), dá pra gente relevar né… quero dizer, quem nunca se “inspirou” um pouquinho a mais em outros trabalhos, especialmente sob a pressão da entrega da arte?

Os casos que vêm a seguir, no entanto, deixam de ser mera “inspiração”, porque os artistas literalmente usam a arte alheia para fazer as capas dos jogos de videogame. Sejam games obscuros desenvolvidos por pequenos estúdios, ou verdadeiros clássicos, o que não falta são exemplos de apropriação do trabalho de alguns artistas que, talvez, nem soubessem que sua arte estava indo parar na capa de um jogo.

Já não bastasse o jogo Shit! (Eurosoft, 1987) ser uma cópia descarada do clássico Pac-Man (Namco, 1980), sua capa também é uma cópia descarada, roubada do romance The Howling III: Echoes, publicado em 1985 por Gary Brandner. Não pense que somente games retro eram culpados de apropriação, porque Borderlands 2 (Gearbox Software, 2012) tem uma capa alternativa que o jogador pode usar – é só virar o encarte ao contrário –, que é plágio de uma série de cartazes criados por Olly Moss para os filmes Star Wars… é uma pena que a publisher não entrou em contato com o próprio Moss para criar a arte de seu jogo de tiro.

Ilustrações criadas para dar um “rosto” às obras de diferentes músicos também não podiam escapar da apropriação, né? Transarctica (Silmarils, 1993) usa na capa a mais famosa ilustração do inglês Rodney Matthews, intitulada Heavy Metal Hero, criada em 1985. Originalmente foi licenciada para uso na capa do disco Am I Evil?, coletânea da banda de heavy metal Diamond Head, lançada em 1987. Além disso, a ilustração se tornou ícone do movimento steampunk.

A capa do jogo Terrorpods (Psygnosis, 1987) é uma adaptação, por Tim White, de um pedacinho da arte original criada por Roger Dean para o encarte do disco Jeff Wayne’s Musical Version of The War of the Worlds, de 1978. O curioso, neste caso, é que tanto White quanto o próprio Dean trabalhavam para a Psygnosis… ou seja, o artista reaproveitou o próprio trabalho?

Civilization Front Cover

O clássico jogo de estratégia Sid Meier’s Civilization (Microprose, 1991) tem uma das capas mais legais, feita com papel recortado. Na verdade, a capa é uma apropriação da propaganda de uma exposição sobre o Egito montada na cidade de Charlotte, em North Carolina, no fim dos anos 80. A cidade no fundo da capa é o horizonte da cidade.

Capas criadas por grandes artistas

Porque não acho justo só gongar os casos de apropriação de trabalho alheio nas capas de jogo de videogame, achei que seria legal listar algumas capas criadas por grandes artistas contemporâneos, famosos ou obscuros, mas excelentes de qualquer maneira.

Diablo II (Blizzard, 2000) marcou uma geração e a série mudou a forma como nós jogamos RPG, e sua capa assustadora foi o que me atraiu na prateleira da loja há quase duas décadas. O logo e os detalhes do crânio do Mephisto em alto relevo eram atraentes para o tato, enquanto as runas na borda da caixa serviam para lembrar que esta é uma aventura sombria, e não um jogo de terror qualquer. O trabalho é uma adaptação da arte original criada por Gerald Brom, embora o manual do jogo não dê créditos ao artista. Brom também criou a capa dos jogos Heretic (Raven Software, 1994) e Doom II: Hell on Earth (id Software, 1994), entre outros.

Das mãos de Bill Eaken saíram algumas das melhores capas dos jogos de aventura da finada LucasArts, como The Dig e Star Wars Rebel Assault II: The Hidden Empire, ambas de 1995, entre tantas outras. A capa de Witchaven (AWE Productions, 1995), com seu estilo clássico medieval, gótico, foi criada por Ken Kelly, artista responsável por ilustrar vários álbums do KISS e Manowar, além de quadrinhos do Conan.

Dark Seed 1992Dark Seed (Cyberdreams, 1992) possui arte da capa por H. R. Giger, além dos cenários e monstros adaptados do trabalho original do artista surrealista suíço. Dark Seed era um dos únicos games da época em alta resolução (640 x 350 pixels), uma exigência de Giger.

P.S.: Um caso curioso

É fato conhecido que a Sega contratou o peruano Boris Vallejo para criar capas de vários de seus games, como Ecco the Dolphin (Novotrade International, 1992), Phantasy Star IV: The End of the Millennium (Sega, 1993) e o clássico Golden Axe II (Sega AM7, 1991).

Vallejo foi contratado para ilustrar a capa do terceiro Golden Axe, de 1993, mas aparentemente a Sega nunca usou a imagem, já que, nos Estados Unidos, o jogo só estava disponível por download via Sega Channel. Lançado em cartucho nos Japão, a capa, estranhamente, era uma imitação do desenho de Vallejo! Ou seja, a Sega tinha em mãos o trabalho de um dos maiores nomes da ilustração de fantasia e ficção científica, mas decidiu usar uma cópia… e ainda por cima colocaram o protagonista na pose de Schwarzenegger em Conan.

Um comentário sobre ldquo;Apropriação da Arte nas capas dos video games

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