Videogames são meu passatempo favorito desde criança. Ficava ansioso todo mês para ver os previews nas revistas, que dedicavam espaço para falar do trabalho de diversas developers, independente do seu “peso” na indústria. Capcom, Kemco, Interplay… todo mundo tinha voz ali. Só que o tempo foi passando, os jogadores se tornaram mais exigentes e passaram a esperar mais dos games, e parece que só as grandes developers continuaram sob os holofotes, então a mídia especializada falava dos games AAA, lançamentos, inovações e etc., e dava cada vez menos atenção à movimentação dos peixes pequenos.

Não me entenda mal, é óbvio que muitos dos melhores desenvolvedores do mundo trabalham nos estúdios AAA, e são responsáveis pelos games que constantemente ultrapassam os limites técnicos da indústria; mas há um foco evidente num punhado de gêneros, narrativas cinematográficas e gráficos super realistas, porque representam uma garantia maior de retorno dos investimentos astronômicos, só que uma hora cansa né.

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Alien Hominid (2002) tem aquele visual clássico de bons jogos feitos em Flash

Quem tem chamado mais minha atenção na última década ou mais são as desenvolvedoras independentes, principalmente depois que a Steam abriu as portas, em 2003, para que elas pudessem mostrar seu trabalho para o mundo, seguida uns anos depois pela AppStore e Google Play que, com a facilitação da distribuição digital, são um prato cheio para os pequenos estúdios – e muita gente vem entregando experiências diferentes, criativas e inovadoras de verdade, ou até repaginando gêneros negligenciados pelas AAA.

Isso abriu portas para que games mobile populares recebessem versões para PC e consoles, como Angry Birds Trilogy (Rovio, 2012) e o brasileiro Horizon Chase Turbo (Aquiris, 2018), e até fossem transformados em jogos de arcade. Se isso não é prova da força que o mercado indie está ganhando, então não sei o que é.

Me lembro direitinho quando Alien Hominid (Dan Paladin, 2002) foi parar no PlayStation 2, no ano que entrei na faculdade, sob o selo do recém inaugurado estúdio The Behemoth. Foi o primeiro jogo independente que eu vi parar em um console, o que me deixou muito surpreso. Um jogo feito em Flash, que eu conhecia por meio do Newgrounds, indo parar no PS2, era um feito incrível! Já um jogo indie lançado direto em um console, que fez muito sucesso e eu gostaria de destacar, é Super Meat Boy (Team Meat, 2010), embora seja válido lembrar que, apesar de lançado originalmente no Xbox 360, o game foi inspirado no Meat Boy, lançado pelo grupo em 2008 também no Newgrounds.

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Super Meat Boy Forever (2018) deve ser lançado em breve, em todas as plataformas possíveis e imagináveis
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Joyce Weisbecker (direita) e sua irmã Jean

Para a gente, pode parecer que o mercado indie é algo recente mas, se quer saber, já havia gente criando games em pequenos escritórios – e até na garagem de casa – desde a primeira ou segunda gerações de consoles. Joyce Weisbecker, considerada a primeira desenvolvedora independente, produziu alguns jogos para o RCA Studio II, console lançado em 1977 pela empresa onde seu pai trabalhava – embora fosse filha do engenheiro, ela própria nunca foi funcionária da RCA, mas recebeu pagamento pelos games que desenvolveu, o que torna-a freelancer e portanto, independente.

É bom ver a forte presença dos indies novamente nos consoles, mesmo que ainda tímidos no mainstream – reflexo da dificuldade que alguns games têm de serem “descobertos” pelos jogadores. Durante os anos 90, as desenvolvedoras indie dependeram muito do formato shareware para alcançar seu público, mas que perdeu força até a década seguinte. Hoje, sites/blogs especializados, e principalmente o YouTube, são a melhor fonte para descobrir as novidades.

O apoio que a Sony, Nintendo e Microsoft, além do espaço em grandes eventos como PAX, E3 e BIG (no Brasil), estão dando aos independentes vai mudar este cenário em pouco tempo, garanto. E fico animado, porque prevejo que cada vez mais gamers – sejam casuais, hardcore ou qualquer coisa no meio disso – conhecerão as diferentes experiências que só as indie developers têm as manhas de arriscar a lançar.

“Há uns poucos anos atrás os desenvolvedores independentes de games ainda se encontravam às margens da indústria de games – seus números pareciam pequenos e as chances de sucesso, ainda menores. Hoje, é difícil imaginar a indústria sem eles,” afirma a jornalista Tracey Lien.

Alguns dos meus jogos de videogame favoritos foram feitos por pequenos estúdios, e publicados independentemente. Broken Age (Double Fine, 2015) por exemplo, é uma linda aventura point-and-click (leia minha resenha) criada pelo mestre Tim Schafer que, com a experiência herdada da LucasArts, deu um sopro de ar fresco ao gênero praticamente esquecido. O game só foi possível, da maneira grandiosa que foi feito, porque os fãs juntaram mais de US$ 3 milhões via crowdfunding pelo Kickstarter.

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Há um certo charme na vida amargurada dos personagens de Machinarium (2009)

A melancólica aventura point and click Machinarium (Amanita Design, 2009), Knights of Pen and Paper (Behold Studios, 2012), Papers, Please (Lucas Pope, 2013), Nidhogg (Messhof Games, 2014), o alucinante run and gun Broforce (Free Lives, 2015), Stardew Valley (Eric Barone, 2016) e No Heroes Here (Mad Mimic, 2017) são alguns games que exemplificam meu sentimento pelo cenário indie, pois só preciso citar poucos exemplos pra mostrar variedade e criatividade.

Provavelmente o jogo que eu mais joguei no Wii, Order Up! (SuperVillain Studios, 2008) pode ou não ter influenciado meu gosto por pilotar um fogão. Eu já tinha jogado Cooking Mama (Office Create, 2006) no DS da minha ex-namorada, também experimentei uma tonelada daqueles minigames que são basicamente juntar ingredientes o mais rápido possível, e nenhum deles bate o quão divertido é Order Up!, graças à maneira como os desenvolvedores aproveitaram os controles de movimento do console da Nintendo; e por mais simples que sejam, mostram uma vontade de criar fora da caixinha e arriscar – afinal de contas, quantas pessoas você conhece que realmente gostam de jogos de culinária?

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Order Up! (2008) é o melhor jogo de cozinha que você vai jogar

Inovação, criatividade e variedade são qualidades que me atraem nos jogos de videogame. Os games da Nintendo costumavam preencher uma lacuna deixada pelas outras grandes desenvolvedoras, hoje nem tanto, por isto esse espaço está sendo conquistado pelas indie! Os jogos AAA certamente agradam a maioria, são os mais populares, precisam ser notados porque precisam vender muito pra recuperar os investimentos, mas muitos deles simplesmente não são pra mim, e talvez não sejam pra bastante gente. Eu sei que, hoje, sou minoria mas, juntando a parcela de jogadores que compartilham da minha opinião, talvez representemos uma porcentagem que soma bilhões de dólares de lucros não obtidos com vendas de jogos AAA que se parecem uns com os outros.

Eu canso de ver comentários na internet (e de alguns amigos) torcendo o nariz para qualquer anúncio de jogo indie sem sequer dar uma chance. Tudo bem, opinião cada um tem a sua, mas opinião sem fundamento é chute, né. E eu quero muito que todo tipo de gamer experimente jogos de desenvolvedoras independentes, o máximo possível. “E por que eu deveria me preocupar com os pequenos estúdios?” você pergunta… porque lá atrás, quando criar jogos de videogame era barato, foram os independentes que vieram com as ideias que moveram a indústria para frente. Richard Garriott vendia cópias de Ultima (1981), o primeiro grande jogo de RPG, em saquinhos plásticos; Civilization (1991) de Sid Meier inaugurou o gênero estratégia; o pequeno estúdio id Software, de John Carmack e John Romero, foi pioneiro no gênero first person shooter com o clássico Doom (1993) e por aí vai.

Hoje esses nomes podem parecer grandes, mas um dia foram tão obscuros – e interessantes – quanto alguns jogos atuais, que esperam ser descobertos pelos jogadores. E por todos esses motivos é que eu tenho prestado tanta atenção nos indies, buscando notícias em sites/blogs independentes, checando o Kickstarter de vez em quando, enfim, tentando descobrir aquele tesouro escondido que, talvez, eleve a indústria a um novo patamar. Se não, ainda assim estou descobrindo e me divertindo com jogos excelentes.

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