Uma realidade mais pesada em Before the Storm

Quando foi lançado em 2015, Life is Strange me surpreendeu (leia meu review) pela inteligência e crueza com que abordou alguns assuntos que envolviam as personagens, especialmente os mais sombrios ou delicados. A prequela Life is Strange: Before the Storm (Deck Nine, 2017) vai ainda mais fundo nas feridas e as consequências do passado das personagens no presente.

Em sua essência, Before the Storm é mais intenso que o jogo de 2015, graças aos seus dois pés plantados nas dúvidas, inseguranças e adversidades vividas por pessoas reais. A Deck Nine aborda, sem meias palavras, diversos assuntos relacionados àquela fase de descoberta da adolescência, à nossa relação com amigos e família, as diferentes formas de lidar com a perda de alguém querido, o uso de drogas, as dúvidas do coração e relações intensas, às vezes destrutivas.

Os três episódios estão repletos de histórias que fazem jus à classificação para o público adulto e, por ser mais realista, também é ainda mais relacionável que os eventos do jogo original. Com cenas recorrentes de violência e abuso psicológico, é importante frisar que Before the Storm pode ser um trigger para muita gente.

Rachel_Room

Sem as distrações causadas por tempestades colossais ou viagens no tempo, neste jogo, vemos como surgiu e se desenvolveu a relação de Chloe Price com a princesa colegial Rachel Amber – que, embora vagamente mencionada no jogo original, é peça chave para o desenrolar dos mistérios que rodeiam o colégio de Arcadia Bay. É nesta prequela que descobrimos porque Rachel era tão especial para nossa protagonista rebelde.

Logo de cara, os diálogos entre as duas garotas mostra uma clara inclinação da narrativa em direção a um romance. Confesso que me senti um pouco “em cima do muro” a princípio, porque, embora seja completamente a favor da iniciativa da Deck Nine de evidenciar, na trama central, protagonistas nas quais o público LGBTQ+ se veja representado (como requisitado após o lançamento do primeiro jogo), uma parte de mim enxergava este possível romance lésbico, até certo ponto, como fan service para o público cis hétero. A verdade é que fiz a maioria das minhas escolhas de diálogo afim de ver até onde era possível avançar na relação de Chloe e Rachel, sem que evoluísse para um romance – e fiquei surpreso ao ver que, em momento nenhum até o fim do jogo, a Deck Nine força um amor lésbico, se o jogador não quiser.

Backtalk-mechanic

Em relação ao gameplay, para suprir a falta da mecânica principal de Life is Strange, que consiste em voltar no tempo, em Before the Storm a desenvolvedora introduz uma nova mecânica, em que Chloe precisa enfrentar outros personagens em discussões acaloradas, meio que para ver que cão late mais alto. Essa mecânica – que ganhou o nome backtalk – é uma novidade interessante, combina com a atitude rebelde e respondona da protagonista, mas confesso que eu ficava ansioso tentando vencer o bate-boca. Infelizmente essas discussões, que causam mudanças reais na narrativa, vão sendo menos exploradas, conforme avançamos no segundo e terceiro capítulos.

A trilha sonora, por sua vez, também segue por um caminho mais sombrio e, de certa forma, contrasta com as músicas indie fofinhas “violão e voz” do primeiro jogo. Composta pelo trio folk londrino Daughter, as músicas traduzem, em palavras, as passagens do game e as emoções das duas protagonistas, trazendo temas como solidão, ansiedade e individualidade através do olhar adolescente.

Chloe-Rachel

Life is Strange: Before the Storm pode ser jogado antes do game original, porque se mantém nas próprias pernas e não dá respostas às possíveis dúvidas deixadas no ar pela DONTNOD no jogo original mas, em contrapartida, a queda pode ser maior, lá na frente, para quem decide jogar ambos games em ordem cronológica, sem conhecer a tragédia que os aguarda. Pensando bem, o fim de Before the Storm – especialmente a cena pós-créditos – é ainda mais pesado se a gente já conhece o final de Life is Strange… ainda assim, passar esse tempo conhecendo melhor quem Chloe é de verdade, e sua relação com Rachel, faz valer a jornada.

Partiu jogar o episódio bônus!

Flávio

Me formei na faculdade de Design em 2007, sou apaixonado pela minha profissão, por rock'n'roll, cozinhar, jogar video game, por Star Wars e hamburger. Colaborador do Greenpeace e Médicos Sem Fronteiras.

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