Pense ter um game instalado durante anos no iPad e nunca abrir pra jogar até que, um dia, você sente que, finalmente, chegou a hora. Foi assim com Superbrothers: Sword & Sworcery EP (Capybara Games, 2011), que comprei no lançamento mas só fui experimentar agora na virada para 2019.

Sword & Sworcery narra as aventuras de uma guerreira Scythian em sua busca por um livro antigo que liberará relíquias capazes de eliminar para sempre uma misteriosa força do mal. Para isso, deverá explorar densas florestas, cavernas escuras e até um mundo dos sonhos, resolvendo enigmas e enfrentando inimigos em batalhas mortais. O que mais me atraiu em Sword & Sworcery, muito além de seus lindos gráficos pixelizados, foi a forma como a história é narrada, deliciosamente minimalista, como uma prosa informal, que frequentemente quebra com a quarta parede.

Com uma pegada meio beatnik, muito da história se dá pelos pensamentos da própria protagonista, que se manifesta em um monólogo sagaz. Reflexões impertinentes [“The wood-chopping woodsman chopped wood.”] se misturam com comentários engraçados [“We had bridged the chasm and we felt super smart.”], recheados de gírias e coloquialidade, que dão muita personalidade à guerreira, estabelecendo também uma conexão de maior proximidade com o jogador.

As personagens não têm nome próprio, mas isto não diminui sua importância. O lenhador Logfella e o cão Dogfella indicam o caminho a seguir; a plácida Girl e o esquisito Grizzled Boor cumprem papel de motivadores; e o misterioso Archetype, um homem de terno e gravata que fuma charuto e está totalmente deslocado do contexto do game, age como o guia do jogador, comunicando-se diretamente com quem está do lado de cá da tela.

Os puzzles são simples, reduzidos a meros toques ou deslizes dos dedos na tela do tablet, mas sua natureza abstrata torna um pouco complicado de entender, logo de cara, o que o game espera que o jogador faça. Não se desespere, porém, se achar que está seriamente empacado em algum momento… talvez você esteja sim. Um dos capítulos é dependente das fases da Lua – sim, a nossa Lua e não a do jogo –, já que a passagem do ciclo lunar libera elementos importantes para o avanço da história. Talvez mais difícil que decifrar este mistério seja estar totalmente imerso no jogo mas precisar esperar um mês inteiro para concluir um único capítulo.

O combate, por sua vez, é quase como uma dança. Entrar no ritmo e reconhecer padrões é essencial para vencer as lutas, pois são sutilezas no movimento dos inimigos que dão as dicas de quando defender-se ou atacar. Lutar contra os chefões – que são as relíquias que a Scythian precisa recuperar – exige paciência e reflexos rápidos, e foram os momentos que me senti mais ansioso, com medo de ser derrotado. Avançar no jogo, no entanto, me deixou mais confiante mesmo na hora de encarar os inimigos mais difíceis.

Embora seja normalmente referido como 8-bit, o gráfico de Sword & Sworcery é mais que isso. Com clara influência de Out of This World (Delphine Software, 1991) e cheios de detalhes, com cada pixel cuidadosamente colocado para dar vida e criar ambiência, os cenários são deslumbrantes e transmitem a sensação de um mundo muito mais vasto do que nossos olhos conseguem enxergar, muito mais antigo do que as lendas narradas pelo Archetype. A trilha sonora tem o mesmo cuidado e constantemente amplifica os acontecimentos narrados; além disso, o EP no título do jogo é uma referência direta ao extended play, que na indústria fonográfica representa um disco que, simultaneamente, é longo demais para ser considerado single, mas curto demais para ser considerado um álbum. A viagem da protagonista, do mundo real para o mundo dos sonhos, é feita, veja só, alternando os lados de um disco de vinil mágico na cabana do lenhador.

Superbrothers: Sword & Sworcery EP é uma aventura épica, bem elaborada e cativante, capaz de agradar mesmo quem não tem gosto pelos clássicos adventures point & click. O estilo retrô é um deleite visual, a protagonista é carismática e, a trilha sonora, uma obra-prima folk. Simples mas fascinante, o jogo deixou em mim uma marca que não será apagada tão cedo, e me fez querer voltar no tempo e não esperar tanto para jogar.

Um comentário sobre ldquo;Finalmente joguei o belo Sword & Sworcery

  1. também comprei em 2011 e nunca terminei devido a questão da fase da lua.

    achei o jogo lindo, a trilha sonora excelente (inclusive tenho ela nas minhas playlists) e as batalhas bem empolgantes.

    sempre penso em voltar a jogar, mas a falta de tempo, aliada ao fato de que possivelmente terei que jogar sem som e que vou ter que esperar virar a fase da lua, sempre me fazem por o jogo de lado.

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