O buraco sem fim das edições “especiais”

Estava conversando recentemente, com um amigo, sobre Red Dead Redemption II (Rockstar, 2018) e comentei as diferentes edições que a publisher lançou do game – quatro no total, sendo três versões com conteúdo extra exclusivo e um box de colecionador que não inclui o jogo. Entramos em uma discussão sobre edições especiais em geral, sobre as quais tenho uma forte opinião:

Eu entendo que as empresas precisam se desdobrar para nos convencer a comprar seus jogos* e entendo, também, que o ser humano se sinta quase compelido a pagar por exclusividade – é uma questão psicológica –, mas chegamos a um ponto que, para mim, tornou-se indigesto. Não se trata mais de uma edição especial, agora as publishers lançam versões com bônus cumulativos que “justificam” pagar mais do que os tradicionais US$60** pra tentar compensar custos de produção – chegando aos US$80, US$100 e, em alguns casos, até mais.

*Especialmente num país como o Brasil, onde ainda impera a pirataria.
**Todos sabemos que os US$60 são mantidos por pressão dos consumidores, mas é um valor que já não sustenta cobrir os custos de produções AAA há anos.

Por um lado, eu sei que provocar o consumidor, oferecendo fases extras ou itens cosméticos exclusivos na pré-venda ou no lançamento, é uma segurança de retorno maior do investimento, mas o que há de “especial” nisso? Por que não cria-se um pacote de conteúdo lançado posteriormente como DLC? Os jogadores adoram DLC! Da maneira como as publishers fazem hoje, em que forçam conteúdo exclusivo no lançamento, me faz sentir que, se eu não entrar nesse barco, estarei perdendo algo valioso do jogo. Por outro lado, DLC não traz esse sentimento, afinal de contas, eu pude experienciar o game completo e agora me sinto confortável em investir na expansão da história, missões extras ou até uma roupinha diferente porque, se decidi pagar pelas DLC, é porque já gosto do jogo e quero mais dele.

Lembra quando edições especiais eram cartuchos de cor diferente, um bundle com a trilha sonora, um controle exclusivo ou um livreto de arte conceitual? Era realmente emocionante possuir uma dessas versões de colecionador, mas nenhuma delas privava os outros jogadores de conteúdo, caso estes não pudessem/decidissem não pagar pelas edições especiais – os cartuchos comum ou dourado de The Legend of Zelda: Ocarina of Time (Nintendo, 1998) têm exatamente o mesmo jogo, independentemente da cor; mas a edição especial de Red Dead Redemption II inclui missões extras que a edição comum não tem.

Outro ponto, em relação às edições de colecionador em mídia física, que incluem itens exclusivos em tiragem limitada: todos os grandes lançamentos caem nas mãos de scalpers, pessoas que compram uma ou várias cópias dessas edições com a única intenção de revender cobrando duas, três ou quatro vezes o valor original. É uma bosta, mas infelizmente as publishers não têm controle sobre isso.

No meu mundo ideal, os games voltarão a ser vendidos completos no lançamento, com opções de conteúdo extra disponíveis posteriormente para quem tiver a necessidade de consumir mais. Jogos digitais, mídias físicas e edições de colecionador serão o mesmo game, cabendo ao jogador optar ou não por pagar por uma tinbox, uma estatueta exclusiva ou artbook que enfeite sua coleção, mas consciente que a experiência de jogo será a mesma para todos.

Flávio

Me formei na faculdade de Design em 2007, sou apaixonado pela minha profissão, por rock'n'roll, cozinhar, jogar video game, por Star Wars e hamburger. Colaborador do Greenpeace e Médicos Sem Fronteiras.

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