Bury Me, My Love narra a jornada de uma refugiada de guerra

Quando eu digo que jogo todo tipo de videogame, é porque eu jogo de tudo mesmo! Ao longo das últimas semanas, andei jogando Bury Me, My Love (Playdius Entertainment, 2017), que narra os perrengues que a jovem enfermeira Nour enfrenta ao migrar da Síria para a França, fugida de seu país, afligido por uma guerra civil iniciada em 2011 e que já tirou a vida de quase meio milhão de pessoas.

Baseado em eventos reais e testemunhos de refugiados sírios, em Bury Me, My Love você joga como Majd, marido de Nour, que se vê forçado a continuar em sua cidade natal para cuidar de parentes afetados pela guerra mas, por meio de mensagens de texto, deve ajudar a moça a tomar as melhores decisões (nem sempre as mais “moralmente corretas”) a fim de encontrar seu destino. Nour depende de Majd para apoio emocional e para receber notícias, mapas e quaisquer informações que ele encontre na internet para ajudar na fuga da esposa.

A interface do game simula a de um app como o WhatsApp e todas as interações são feitas por meio de troca de mensagens, emojis e selfies. Você escolhe como reagir e que mensagens enviar. Tudo se passa em tempo real – se Nour diz que se ausentará por um dia, o game ficará 24 horas do mundo real sem interagir com o jogador –, embora a opção possa ser desligada, como é padrão nas versões para Nintendo Switch e PC, o que torna a versão original mais interessante e, por que não, estressante. Quando Nour volta com notícias, você recebe uma notificação, e ficar à espera dessas interações me deixava um pouco ansioso.

É preciso atentar-se às desventuras da jovem para evitar o máximo dos problemas comuns enfrentados por refugiados. Ela pode encontrar resistência policial, ser enganada por um contrabandista, passar dias sem ter aonde dormir, ficar sem dinheiro e, claro, sofrer com racismo e xenofobia. Sua jornada é perigosa, imprevisível e o jogo não oferece uma duração pré-determinada: Nour pode passar poucos dias, alguns meses ou, de acordo com a developer, até anos para conseguir chegar na França!

No papel de Majd, fui percebendo minha impotência quando decisões bem pensadas não davam os frutos que eu esperava. Não somente acontecem imprevistos como os supracitados, mas Nour também não obedece cegamente às escolhas do jogador – afinal de contas, é ela correndo risco de vida – e variáveis como grana, valores éticos ou até o próprio humor dela, podem mudar a direção da narrativa.

Em um momento, notei que Majd estava com ciúmes de um refugiado com quem Nour tentava cruzar a fronteira italiana, deixando afetar sua relação, assim tentei de todas as formas “segurar a onda” dele, a fim de não irritar a jovem – deu certo. Noutra ocasião ele, notando que sua esposa havia gastado muito dos Euros que levou para fazer a extenuante viagem, sugeriu enviar mais dinheiro para ela, o que causou um mal-estar entre o casal e Nour passou dois dias sem responder as mensagens de Majd.

Bury Me, My Love é muito bem escrito e as personagens tem traços de personalidade marcantes, o que contribui muito para a imersão. Conforme passavam os dias, eu ia me envolvendo mais com o casal, e passei a me importar e torcer pelo bem da jovem Nour. No meu primeiro gameplay, infelizmente, ela sequer chegou à França, o que foi muito frustrante depois de semanas jogando – mas acho que a realidade é assim mesmo, não?

Bury Me, My Love é a história de uma jovem síria, mas resume as narrativas de milhares de migrantes que deixam tudo para trás e buscam recomeçar a vida longe da violência e da miséria. Certas passagens me lembraram Papers, Please (Lucas Pope, 2013) em que, contando com a sorte, Nour e outros refugiados tentaram enganar a imigração com passaportes falsos. A história de Nour e Majd pode ser ficcional, mas é muito real e pode ser até assustadora – é preciso lembrar que, antes de tudo, Bury Me, My Love tem como cenário eventos que estão acontecendo, neste exato momento, no Oriente Médio.


Como ajudar os refugiados sírios

Conhecer a história dos refugiados sírios é um começo para a conscientização dos problemas que a população enfrenta com a guerra, que já dura quase uma década, mas é possível ajudar com doações a entidades atuantes na região:

A UNICEF mantém campanha constante para recolher doações [clique para doar], cujo dinheiro é usado para vacinação e compra de cobertores, alimentos e material escolar para as crianças, entre outras coisas. A agência de refugiados da ONU [clique para doar] tem uma equipe de mais de 600 pessoas dando suporte à população síria, e já entregou mais de 6 milhões de itens básicos como cobertores, materiais de cozinha, colchões e roupas.

A ONG International Rescue Committee faz um apelo por doações [clique para doar] para ajudar no atendimento médico à população carente, e atua em cinco clínicas desde 2012. O movimento Estou Refugiado atua na cidade de São Paulo [clique para ajudar], com objetivo de acolher refugiados que buscam emprego no Brasil, elaborando currículos em Português e fazendo parcerias com empresas.

Por fim, você pode fazer como eu faço, e doar para o Medecins Sans Frontieres [clique para doar] que, embora não tenha ações específicas para a Síria, realiza um forte trabalho no país e em vários outros onde há conflitos armados, como a Nigéria.

Flávio

Me formei na faculdade de Design em 2007, sou apaixonado pela minha profissão, por rock'n'roll, cozinhar, jogar video game, por Star Wars e hamburger. Colaborador do Greenpeace e Médicos Sem Fronteiras.

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