Ontem (19 de março), durante um painel na Game Developers Conference 2019, a gigante Google anunciou sua plataforma de games por streaming, chamada Stadia. Com ela, será possível jogar video game em qualquer dispositivo através do navegador Chrome, ou seja, os jogos rodarão em qualquer computador, tablet ou smartphone com o navegador instalado, e até televisões com o Chromecast Ultra.

Como a Stadia faz isso? Rodando os jogos na nuvem, interconectada aos 7.500 nós do data center do Google espalhados pelo mundo todo. A ideia, de acordo com a apresentação, é dar acesso instantâneo aos jogos, sem download, instalação e muito menos os infames day-one patches bem conhecidos da atual geração de consoles. Além disso, como tudo roda dentro do data center, o jogador poderá ir de um dispositivo para outro sem complicações e sem limitações de hardware.

Assista ao resumo do painel da Google Stadia na GDC 2019

O Google não é o primeiro a oferecer um serviço de streaming de jogos – a Nvidia já tem o GeForce Now desde 2015, a startup Blade oferece o serviço Shadow desde 2017 e a própria Microsoft deve lançar o xCloud em breve–, então por que o anúncio da empresa californiana é tão relevante? Porque, até a data da publicação deste post, o Google conta com mais de 2 bilhões de usuários ativos do Chrome e 62,34% do marketshare dos navegadores de internet. [Fonte] Mais da metade dos usuários conectados à web no mundo inteiro se tornam base instalada assim, da noite para o dia!

O que tem de bom?

As pessoas poderão jogar seus jogos favoritos em qualquer tela, a qualquer momento – em resoluções de até 4K e 60fps – e sem limitações de hardware, o que significa que você não precisa ter o computador ou mobile da última geração para aproveitar os jogos em todo seu potencial; vídeos de games no YouTube darão acesso aos jogos que os mais de 200 milhões de espectadores diários estiverem assistindo, ao alcance de um botão; jogadores que estiverem empacados poderão pedir ajuda ao Google Assistant e obter informações, em tempo real, de como passar de fase.

Aos desenvolvedores, o Google disponibilizará todo o poder de processamento de seu data center e recursos quase infinitos para rodar jogos limitados apenas pela imaginação dos criadores, e pelo fato que os jogos da Stadia deverão ser reprogramados para a plataforma (em vez de simples ports). Parece ótimo!

O que tem de ruim, então?

Para os desenvolvedores… humm, acho que nada. A Stadia é mais uma plataforma onde eles poderão vender seu produto, com uma base instalada colossal e com todo o suporte que o Google dá com seus serviços como o YouTube, seu index e motor de busca.

Para os jogadores, além do valor da assinatura do serviço (ainda não divulgado), o maior problema será a dependência de uma internet de alta velocidade que, talvez, os provedores brasileiros ainda não estejam em conformidade, veja:

Já para colecionadores como eu, a Stadia permite vislumbrar um futuro em que o sucesso da plataforma (e dos serviços que seguirem) botará o último prego no caixão dos jogos em mídia física. Eu sou um jogador old school, gosto dos meus cartuchos e dos meus CDs, e ainda compro 90% dos meus jogos em mídia física. Já falei aqui no blog sobre um futuro totalmente digital do mundo dos games e como ele afetará a maneira como nos relacionamos com a mídia, sendo que o maior problema é que, digitalmente, perdemos a tangibilidade e o senso de propriedade – o jogo pelo qual você pagou não te pertence.

O que nos leva a outro ponto, no qual o jogador não tem controle sobre a própria biblioteca de jogos. Imagine que você está jogando Assassin’s Creed Odyssey (Ubisoft, 2018) na plataforma de streaming ou ele está na sua lista de games para jogar e, um certo dia, a publisher remove ele da biblioteca da Stadia… ou melhor, pense em P.T. (Kojima Productions, 2014), o aclamado jogo de terror que nunca existiu, quem baixou na época, tem o demo e pode jogar… quem não baixou, não vai ter nunca. Se eu desinstalar o Tiny Death Star (NimbleBit, 2013) do meu iPad, não poderei baixar novamente porque ele não existe mais na AppStore.

Não me entenda mal, eu não acho o conceito da Stadia ruim… para falar a verdade, eu acho brilhante! Eu tenho todos meus produtos integrados ao ecossistema do Google e ter acesso a video games com tal facilidade é excitante, mas ficaremos cada vez mais reféns dos prestadores de serviço – seja Stadia, Netflix, Spotify, CrunchyRoll e etc. – e eu ainda gosto de pegar meus jogos na mão, cuidar da minha biblioteca, e ligar o console para jogar.

E você, está animado(a) com o anúncio e breve lançamento da Google Stadia? Acredita que o streaming de games finalmente chegou para ficar? Deixe sua opinião nos comentários.

2 comentários sobre “O que a plataforma Google Stadia significa para o futuro dos video games

  1. Para mim, o Stadia é um projeto bem ambicioso.

    A promessa é bem interessante, mas tenho dúvidas se vai de fato ser funcional. Muita gente elogiou o protótipo do Project Stream e parece que o Stadia está melhor ainda, no entanto, até o momento, só conseguiram testar em ambiente controlado. E mesmo em ambiente controlado, tem problemas com artefatos visuais e latência, como reportou o Eurogamer. Para nós brasileiros parece muito improvável que ele será viável por causa da infraestrutura de rede ruim, mesmo nos pacotes de internet mais velozes.

    Ao contrário do que você afirma, acredito que o Stadia é sim uma grande questão para os desenvolvedores, principalmente os independentes. Além do custo com a adaptação (parece que o Stadia roda em Linux, o que significa algum custo para portar jogos), há a questão do modelo de negócio, como bem apontou Noel Berry, desenvolvedor de Celeste, lá no Twitter. Dependendo de como for feito, será inviável para desenvolvedores menores (talvez o custo não justifique o esforço), mas se o foco da plataforma for jogos de alta produção esse tipo de problema não acontece.

    Concordo com os pontos que você levantou, como jogos saindo do catálogo e a sensação de “intangibilidade” dos títulos. A verdade é que nem sabemos ainda o modelo de negócio, mas tudo aponta para uma assinatura que dá acesso a toda biblioteca. Fora isso, há a preocupação de ser mais um produto Google, empresa essa que anda desrespeitando questões de privacidade em busca do lucro descomedido, o que pode significar manipulação de seus algorítimos, como já acontece.

    Eu até acho a ideia interessante, no entanto, particularmente, acho difícil que funcione do jeito que eles estão falando. Mesmo em conexões boas, alguns gêneros que exigem maior precisão de comandos vão ser inviáveis. E não acredito que chegou a hora do streaming, ainda mais com o mercado tradicional funcionando bem. O jeito é esperar para ver.

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    1. Para entender o caso dos desenvolvedores, a gente precisa de duas coisas: primeiro, algum tempo da Stadia no ar; segundo, estar nos bastidores. As dúvidas do tuíte do Noel Berry são bem válidas, e o caso do (possível) licenciamento e/ou royalties é uma que eu sequer tinha pensado, por exemplo.

      Mas o Google afirmou que vai entrar com investimentos em parceria com as developers, só não ficou claro se esse investimento será para financiar o desenvolvimento de novos games (EG exclusivos, como a Microsoft fez com Cuphead) ou talvez a migração de jogos existentes para a plataforma (já que eles já afirmaram que não serão simples ports), não sei… é esperar para ver.

      Ontem a Apple anunciou o serviço Arcade, então a gente deve entrar em uma modinha de “Netflix” dos jogos. Se valer a pena, tanto para nós quanto para os devs, então que venha! Eu estou com você e também acho que a hora do streaming ainda não chegou, mas alguém precisa dar o primeiro passo.

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