A estreia da Turma da Mônica nos video games, há quase três décadas, foi no clássico tupiniquim Mônica no Castelo do Dragão (Tectoy, 1991), uma reprogramação gráfica – ou reskin – criada no Brasil, sob encomenda da Tectoy, do jogo original Wonder Boy in Monster Land (Westone Bit Entertainment, 1987). Ao longo dos anos, outras iterações foram criadas, sendo a mais recente Mônica e a Guarda dos Coelhos (Mad Mimic Interactive, 2018), uma reprogramação gráfica do jogo original da própria desenvolvedora paulistana, que já avaliei aqui no blog.

Capa da revista em quadrinhos Mônica, edição nº 46 de fevereiro de 2019
Mônica nº 46, “A Guarda dos Coelhos”, de fevereiro/2019.
Toque na imagem para ver a historinha em vídeo.

No jogo, com enredo escrito pelo pessoal da Maurício de Souza Produções e fazendo breve referência aos games da turma dos anos 90, Mônica e seus amigos atendem ao pedido de socorro de uma Estrela* perdida, e devem unir-se para defender os 20 castelos do reino do deus Coelho dos ataques ferozes do exército de Monstros de Sujeira. Em cada castelo, nossos heróis vão coletar relíquias sagradas que trarão de volta o deus Coelho, reestabelecer a paz e limpar toda sujeira causada pelos vilões, permitindo a Estrela voltar para casa. A premissa é simples, mas é adequada como derivado fantástico do universo infantil criado por Maurício de Souza em 1959, e é suficiente como pano de fundo para o tower defense da Mad Mimic.

Apostando em uma ideia original, o manual de instruções de Mônica e a Guarda dos Coelhos foi transformado em revista em quadrinhos e vendido nas bancas de jornal. Nele há não somente a história do jogo, como menções às mecânicas e estratégias. Quem compra os quadrinhos da Turma teve em mãos uma boa introdução (e propaganda) do game, e quem joga pôde ter o manual em um formato totalmente inédito. Muito bacana!

A estética do jogo remete à época de ouro dos consoles de 8-bit e 16-bit, com gráficos pixelizados e paleta de cores minimalista, normalmente limitada a duas ou três matizes. Essa decisão inteligente de design proporciona uma leveza visual, com mínima poluição, para que nossos olhos não se percam na jogatina. Mesmo com poucos pixels de altura, as personagens mantém a maioria de suas características físicas, então é fácil se encontrar na tela mesmo quando a chapa está quente.

Ainda que a temática medieval seja herdada do jogo de 2018, os gráficos foram redesenhados para harmonizar com o universo da turma do bairro do Limoeiro, com pequenos detalhes que dão mais charme à aventura, como coelhinhos incrustados nas muralhas dos castelos, ou o Jotalhão que usa um tomate como ferramenta, por exemplo.

A mecânica segue os moldes do No Heroes Here (Mad Mimic Interactive, 2017), jogo que serviu de base para Mônica e a Guarda dos Coelhos. Um até quatro jogadores devem defender o castelo das investidas dos Monstros de Sujeira e, para isto, seguir uma série de passos que consiste em fabricar pólvora, fabricar balas de canhão, armar os canhões, dispara-los e limpa-los em seguida, deixando as armas prontas para o próximo tiro. A diferença é que, dessa vez, nossos heróis contam com um arsenal peculiar: poderosos coelhos de pelúcia, que fazem as vezes das balas de canhão! Sansão, Dalila e Hércules devem ser fabricados com pedra, receber poderes e ser disparados dos canhões na direção dos inimigos. O que diferencia cada coelho são seus poderes, que podem deixar os Monstros de Sujeira mais lentos, paralisa-los por alguns segundos ou lançar o batalhão pelos ares!

Novidades desse jogo, em comparação com No Heroes Here, são que alguns castelos possuem portais por onde é possível teletransportar objetos e personagens, uma adição interessante que motiva novas estratégias; outra são passagens e barreiras que você pode ativar com um botão; também há três objetivos extras em cada fase, como zerar sem tomar dano ou usando um número máximo de coelhos; e por último, Mônica e a Guarda dos Coelhos oferece três níveis de dificuldade, bom para jogar com as crianças, por exemplo.

Apesar da natureza caótica do jogo, cada ataque deve ser minimamente planejado, considerando a posição dos canhões e seu alcance, o coelho a ser usado, o tipo de inimigo a ser combatido e até o trabalho necessário para que um único coelho seja disparado. Parece trivial, mas organizar as ações e sincronizar a equipe é uma tarefa altamente complexa, principalmente nos estágios mais avançados, que tem castelos com layouts mais complicados e ondas de inimigos que demandam uma certa combinação de coelhos e boa estratégia para derrotá-los sem levar muitos danos. Some a isso os três objetivos extras de cada fase e a jogatina pode virar uma bagunça generalizada.

O ponto forte de Mônica e a Guarda dos Coelhos – como você talvez tenha notado pelos últimos parágrafos – é que é quase obrigatório jogar em equipe. Jogar sozinho não é impossível, até porque a dificuldade d’A Guarda dos Coelhos é consideravelmente menor que de No Heroes Here, mas pode ser super frustrante mesmo para os jogadores mais experientes… e vá por mim, também é muito mais legal jogar com os amigos.

Como já foi comentado, até quatro jogadores podem encarnar os personagens da Turma da Mônica em defesa dos castelos do reino do deus Coelho. Nesse game, comunicação é a chave para conseguir vencer as fases – informar a tarefa que você está executando, anunciar a chegada de novas ondas de inimigos, indicar a localização dos itens e quais é preciso fabricar, enfim, conversar o tempo todo para que a equipe esteja em sintonia. E pode esperar gritaria, porque vai ter gritaria! É impossível, no calor do momento, se controlar e impedir que os ânimos se exaltem. Mas essa é a diversão de Mônica e a Guarda dos Coelhos. Quem tem saudades dos clássicos multiplayer couch co-op tem aqui um prato cheio para se divertir esparramado com os amigos no sofá da sala.

Mônica e a Guarda dos Coelhos é um tower defense de qualidade para jogar com a criançada, ou com os amigos barbudos nostálgicos pelas histórias da turminha. Simples, dinâmico e muito divertido, vai garantir boas horas de jogatina para quem quiser completar todos os objetivos. É legal ver uma IP brasileira ganhar o mundo nos consoles, e poder apreciar o excelente trabalho de uma desenvolvedora nacional.

*Será que a Estrela perdida é a Mariana, irmã do Chico Bento, que faleceu quando ainda era um bebê? Eu gosto de pensar que sim.

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