A divertida (e viciante) vida na fazenda em Stardew Valley

Desde que ouvi falar de Stardew Valley (ConcernedApe, 2016) pela primeira vez, pouco antes de seu lançamento na Steam, imaginei o jogo de simulação de fazenda chegando a um console da Nintendo – sonho fácil de compreender, afinal de contas, o game desenvolvido por Eric Barone abertamente bebe da fonte do clássico Harvest Moon (Amccus, 1996) para o Super Nintendo. Ao longo das últimas semanas, quase três anos após o lançamento inicial, tenho jogado no Nintendo Switch.

Stardew Valley é uma humilde aventura sobre a monotonia da vida no campo, é uma evolução do jogo que o inspirou, é charmoso, sua história simples mas envolvente, é relaxante e tem conteúdo que não acaba mais. Ele “conserta” todos os defeitos da série Harvest Moon e expande-a com elementos de RPG, sistema de combate, mais variedade e liberdade. E o mais impressionante é ter sido desenvolvido por uma única pessoa.

Porque não quero fazer comparações diretas com Harvest Moon mas me sinto na obrigação de falar, vou pontuar somente um elemento que prefiro em Stardew Valley. Diferente do clássico dos anos 90, ele não tem fim: os anos passam ao infinito, as sidequests são geradas ao infinito, e você tem tempo mais que suficiente para completar todos os desafios do jogo. Isso é ótimo, porque eu sempre odiei que Harvest Moon termina ao final do segundo ano! Continuando…

Stardew Valley, como eu imaginava, é um jogo simples. Ele oferece muitas atividades – plantar, coletar recursos, expandir os negócios, pescar, explorar, casar-se e ter filhos, decorar a casa, etc. –, mas elas não tem tantas camadas. Mesmo as ações que permitem subir de nível mantém sua simplicidade mecânica do início ao fim do game, o que considero um ponto muito positivo, porque torna-o acessível a qualquer jogador, atributo essencial.

Graficamente, o jogo criado por Eric Barone é lindo, vibrante e cheio de pequenos detalhes que dão vida ao mundo, como de repente um sapo que sai da sua frente e pula dentro da água do lago. As estações trazem sempre alguma novidade, com mudanças drásticas na paleta de cores e na decoração da cidade, por exemplo. Diferente de tantos outros jogos 8-bit e 16-bit que usam e abusam de efeitos visuais dos motores de jogo modernos – o que, para mim, foge do conceito –, Stardew Valley transmite fielmente a sensação de um video game criado em meados dos anos 1990.

Contrariando as narrativas simplórias dos jogos de vinte e poucos anos atrás, Stardew Valley é, a seu modo, bem escrito e desenvolvido. O enredo, embora simples – você herda a fazenda do avô após deixar o trabalho de escritório –, apresenta profundidade temática, com o interessante backstory das personagens trazendo questões de todos os tipos como abandono familiar, depressão, alcoolismo, introversão, sentimento de não-pertencimento, para dizer alguns… eu acredito que o próprio desenvolvedor colocou muito de si nessas personagens:

Para mim, [abordar esses temas] inclui ir além das fronteiras do que é esperado de um personagem de video game. As pessoas lidam com problemas pessoais, e eu queria mostrar isto. Eu acho que torna os personagens mais relacionáveis… não somente essas abstrações ideais de pessoas que às vezes encontramos nos games.

Eric Barone, em uma entrevista para a revista GQ.
Minha fazenda no outono do segundo ano

O que eu mais gosto é passar o tempo cuidando da fazenda. Como tudo em Stardew Valley, o cultivo de frutas, legumes, verduras e flores não é complexo, mas sua natureza metódica é relaxante. A variedade de plantas disponíveis em cada estação e seus tempos de plantio e colheita, além da quantidade de produtos animais e como é possível processá-los, oferece desafio constante, que aumenta conforme você sobe de nível e precisa administrar uma produção maior e mais animais. Como o jogo registra tudo que você já colheu, produziu e vendeu, se você for um completista há um incentivo para diversificar a produção e quebrar a rotina que você, com o passar das estações, certamente estabelecerá. Além disso, o jogo também registra os peixes que você pescou, os minérios que cavou e muito mais. Stardew Valley é pesado no colecionismo, e eu gosto disto!

Stardew Valley é uma aventura cheia de encanto e mistério. Mesmo caindo na rotina, cada dia oferece uma abundância de atividades, desafios a ser superados e amizades a serem construídas. Embora já esteja na metade do meu terceiro ano – pouco mais de 85 horas de jogo –, ainda há muito que descobrir: há uma caverna inteira para explorar, itens para colecionar, uma nova ferramenta para coletar minérios e um bebê recém-nascido que ainda não descobri para que serve. Ainda assim, se o tédio bater, há o modo multiplayer co-op onde posso trazer até três amigos para minha fazenda. Como na vida real, há um enorme potencial do que fazer ao longo do dia, e só depende de você decidir o que.

Flávio

Me formei na faculdade de Design em 2007, sou apaixonado pela minha profissão, por rock'n'roll, cozinhar, jogar video game, por Star Wars e hamburger. Colaborador do Greenpeace e Médicos Sem Fronteiras.

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