Pesado na nostalgia, Evoland: Legendary Edition faz bem e faz não-tão-bem

No início do ano reclamei que havia desistido do meu backlog – jogos que prometi jogar mas nunca joguei – mas como sou um pouco teimoso, decidi dar chance para Evoland: Legendary Edition (Shiro Games, 2019), só um da looonga lista, jogando-o no Nintendo Switch.

Evoland

A premissa do primeiro Evoland (Shiro Games, 2013) é super interessante! Como o nome sugere, o jogo passa pela evolução dos jogos de RPG. Ele começa com gráficos pixelados preto-e-verde que imediatamente reconhecemos como sendo do Game Boy, evoluindo até personagens e cenários ganharem a terceira dimensão, novas mecânicas e sistemas. O jogo é bonito e autêntico, mas Evoland ganha cores logo no primeiro 1:30 minuto, e em 10 minutos já está no “último nível” com gráficos que lembram o PlayStation – não dá tempo de apreciar o trabalho dos artistas, então a evolução gráfica logo perde a graça.

Evoland também brinca muito com as referências. Eu já joguei minha cota de games com piadinhas autorreferenciais e metalinguagem, e a equipe por trás de Evoland claramente conhece do assunto, fazendo alusão a jogos e personagens icônicos, e até certas cagadas do mundo dos games – se você já tem seus 20 ou 30 anos de jogatina, vai reconhecer os clichês e estereótipos.

Infelizmente, tire a evolução gráfica dentro do jogo e as referências à história do gênero e não sobra muito em Evoland. Com cerca de 3 horas de duração, a impressão é que esse é o rascunho de uma grande ideia, com foco demais na nostalgia mas carente de profundidade.

Evoland II

A sequência Evoland II: A Slight Case of Spacetime Continuum Disorder (Shiro Games, 2015) mantém o espírito do original mas com uma abordagem mais séria à história, e apresenta uma evolução enorme de conceito e estilo em relação ao predecessor. Sem deixar de lado o bom humor, o jogo é um RPG mais “tradicional”, com narrativa robusta e bem trabalhada, personagens complexos e um mundo bem amplo. Você é um jovem herói em uma aventura através do Tempo claramente inspirada em Chrono Trigger (Square, 1995), dessa vez com duração de umas 20 horas.

Seguindo a temática de evolução, cada período no Tempo apresenta um estilo artístico diferente correspondente a várias gerações de consoles: o “presente” é um mundo 16-bit colorido como da época do Super Nintendo; o “passado” tem os gráficos monocromáticos do Game Boy; e o “futuro” é tridimensional; e você fica alternando entre eles conforme a história se desenrola. Os gráficos são muito mais polidos que do primeiro jogo, independente de estilo, e cumprimentam perfeitamente os gêneros e Eras da história dos games a que referenciam, incluindo suas limitações.

A trilha e o sound design também evoluem ao longo do tempo, com o jogo começando sem som e construindo para a estética dos RPG modernos. Adicionar detalhes aos poucos faz com que as faixas e efeitos sonoros se destaquem, e podemos percebê-los melhor antes que se combinem com a malha sonora do jogo.

Evoland II é imediatamente mais imersivo que o primeiro game e mostra o que a Shiro Games talvez quisesse ter feito com o predecessor. Mas como toda moeda tem dois lados, tentar entulhar tudo no mesmo pacote nem sempre dá os melhores resultados. É legal ver como o jogo pula de uma ação estilo Zelda, para plataforma, batalhas em turno, estratégia e até “jogo de navinha” – para citar alguns! – mas claro que um ou outro estilo de jogo teria menos força, embora nenhum seja ruim.

Vez ou outra fiquei travado em alguma parte do jogo, andando e conversando com todo mundo sem saber muito bem o que fazer para avançar na história. Uma lista de missões e sidequests ativas ajudaria bastante, e evitaria frustração e ter que procurar algumas respostas na internet. Esse é um ponto que me incomodou bastante, mas Evoland II é um JRPG, por bem ou por mal.

No geral, Evoland II não reinventa a roda mas presta uma homenagem honesta às tantas rodas que vieram antes dele. Se você quer um RPG agradável ou está indeciso que gênero explorar, aparentemente Evoland II é o que você procura. Se não, você talvez sinta que deveria estar jogando os games que o inspiraram.

Embora com defeitos, Evoland e sua brincadeira com a cultura e história dos games é perfeita para jogadores das antigas, enquanto Evoland II é um ótimo RPG que se aventura, com altos e baixos, por outros gêneros. Aqueles que acreditam que a Era de Ouro dos games jamais será superada e aqueles que curtem todos gêneros clássicos sem dúvida terão boas horas de diversão. E como é isso que importa, fica minha recomendação que você compre Evoland: Legendary Edition, porque no geral é um bom jogo por um pequeno preço.

P.s.: se você jogou Evoland: Legendary Edition e gostou, vale muito a pena conhecer sua origem, o game criado por Nicolas Cannasse durante as 48 horas do 24º Ludum Dare, clicando neste link.

Flávio

Me formei na faculdade de Design em 2007, sou apaixonado pela minha profissão, por rock'n'roll, cozinhar, jogar video game, por Star Wars e hamburger. Colaborador do Greenpeace e Médicos Sem Fronteiras.

2 respostas para ‘Pesado na nostalgia, Evoland: Legendary Edition faz bem e faz não-tão-bem

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