“Ser uma cobra” não é tão fácil assim em Snake Pass

Vou direto ao ponto: Snake Pass (Sumo Digital, 2017) é um jogo que eu me esforcei muito pra gostar, mas não rolou. Anunciado como um puzzle-platformer com jogabilidade única – o que, de fato, ele é – e com o trailer mais fofo que você pode imaginar, o jogo conquistou a muitos pela inventividade e carisma; mas, para mim, falhou em um ponto crítico.

Deixa eu falar do que é bom primeiro. O conceito é único! Desde o anúncio do game, eu estava animado para ver a developer arriscar algo realmente novo em um gênero já esgotado e Snake Pass é, de verdade, um dos platformers mais criativos que eu já vi. “Pense como uma cobra,” diz a descrição do game e é exatamente isso que você precisa fazer. Você joga com a cobra Noodle que, acompanhada do beija-flor Doodle, deve coletar pedras preciosas, medalhões e outros itens espalhados pelas fases, superando obstáculos, abrindo novos caminhos, se enfiando em buracos, escalando estruturas de bambu, nadando com os peixes, se pendurando e, 99% do tempo, enrolando seu corpo esguio em tudo que há pela frente.

Apesar de estar também no PC e nos outros consoles, para mim Snake Pass “pertence” ao Nintendo Switch. Seu visual cartunesco e deslumbrante tem um charme que bebe da fonte do trabalho da Rareware na época do Nintendo 64. Os gráficos super coloridos, que dão tanta vida ao mundo do jogo, emanam charme e personalidade, e apresentam boa variação no avançar da história. A interação entre as personagens também remete aos platformers da época. A protagonista Noodle é adorável, super expressiva e o pequeno Doodle esbanja fofura. Juntos, cada elemento se une ao outro para formar um game bonito de se ver.

A trilha sonora original tem apenas seis faixas mas é uma delícia, com uma levada otimista, temas alegres e relaxantes, que exploram ritmos musicais tropicais como o calipso caribenho, com forte presença do tambor-de-aço trinitário, da conga e da flauta de pã. Um deleite de camadas e texturas, as músicas parecem resgatadas de algum Donkey Kong Country; não é surpresa que foram compostas pelo britânico David Wise, cuja experiência abrange não só DK, mas Battletoads, Diddy Kong Racing, Yooka-Laylee e tantos outros. Ouça um trecho abaixo:

Agora a única parte ruim… jogabilidade. Snake Pass faz um bom trabalho em não segurar a mão do jogador e limitar o tutorial ao essencial, mas é frustrante o quão difícil é controlar os movimentos de Noodle. Tecnicamente, você controla somente a cabeça da personagem, por meio de combinações de comandos que a fazem deslizar pelos objetos e se prender onde possível, mas difíceis de fazê-los exatamente na posição que você pretende. O resto do longo corpo de Noodle fica pendente, a mercê da gravidade e do atrito, sem seu controle. Há um tipo de sistema que sugere ao jogo onde melhor posicionar a personagem mas, na maior parte das vezes, este sistema funciona imprevisivelmente. Basta tirar os dedos dos botões e qualquer coisa pode acontecer. Mesmo que você faça tudo direitinho, e consiga que Noodle alcance e se enrole no local desejado, o menor movimento da direção errada e a cobra se desenrola e cai, sem salvação, no vazio infinito sob o cenário.

O sistema de câmera do jogo piora a situação. Muito frequentemente eu me peguei lutando contra a câmera, só pra me localizar melhor no cenário, enquanto tentava deslizar e me agarrar ao bambu mais próximo. A câmera estava longe demais, ou estava perto demais, ou apontava na direção oposta à que eu queria. Dá para ajustar, claro, mas você se verá escolhendo entre localizar-se no cenário, ou segurar-se firme nos objetos.

No geral está aí um conceito inovador de platformer mas, apesar das qualidades, como os lindos gráficos e a trilha sonora bem-humorada, no fim do dia é a jogabilidade que faz o game e neste aspecto, Snake Pass não entregou. Uma pena, porque eu queria muito gostar do jogo. Pela originalidade, eu ainda recomendo você experimentar Snake Pass, mas saiba que os controles podem frustrar bastante.

Flávio

Me formei na faculdade de Design em 2007, sou apaixonado pela minha profissão, por rock'n'roll, cozinhar, jogar video game, por Star Wars e hamburger. Colaborador do Greenpeace e Médicos Sem Fronteiras.

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