Colecionando games em época de crise

Está difícil colecionar jogos de videogame, ainda mais em meio aos tantos problemas da atualidade. Tem o lance da pandemia do coronavírus, a alta histórica do dólar batendo R$ 5,87, a pouca oferta de mídia física no mercado, a crescente “bolha” do colecionismo e, se você é fã da Nintendo (assim como eu) ainda tem a falta de representante oficial no país, restando pequenos importadores com preços mais altos. A combinação desses fatores tornou o hábito de colecionar inalcançável para muita gente. Hoje já não dá pra comprar vários games de uma vez, às vezes nem mesmo com frequência, mas tenho umas sugestões de como continuar colecionando de forma mais pragmática.

Antes de tudo, tenha em mente que eu coleciono jogos que eu quero jogar, que me trazem boas lembranças, e não pra deixar exposto na prateleira. O momento delicado que estamos passando pede inteligência para comprar bem, sem se arrepender mais tarde. Sendo assim, este post não tem intenção de ser um guia para [novos e velhos] colecionadores, mas ideias que tem me ajudado a curtir o hobby, mesmo com tantas adversidades.

Colecione o que você ama (de verdade!)

Essa parece óbvia, mas é muito fácil se deixar levar pela empolgação em vez de seus próprios instintos. 😱 Meus maiores inimigos são os youtubers, com seus vídeos excitantes que deixam a sensação de que você PRECISA COLECIONAR TODOS os jogos. Você não precisa! Respira fundo e pensa no que você mais ama no mundo dos games: é uma franquia específica? Um certo console? Talvez uns jogos que você gostava quando era criança? O trabalho de um designer? Uma developer favorita? Uma jóia escondida? As possibilidades são muitas.

Meu console favorito é o Nintendo 64. Eu tive 18 cartuchos quando era criança mas aluguei inúmeros outros na locadora ProGames perto de casa, o que me permitiu conhecer a maior parte da biblioteca do console. Hoje tenho orgulho de dizer que comprei todos os 67 games que mais me marcaram, e completei minha coleção. Outro exemplo: o primeiro console que meus pais compraram pro meu irmão e eu foi o Master System, lá em 1992. Toda sexta-feira era dia de alugar um cartucho, e nós jogamos muito! Mesmo assim, minha coleção inteira tem só 6 jogos, exclusivamente os que eu mais amo! Sinceramente, não preciso de nenhum outro jogo do Master na minha coleção.

O lado bom é que você reduz sua lista de desejos aos games indispensáveis e, talvez, aqueles que você mais gosta ainda custem barato. Eu comprei WarioWare: Smooth Moves (Nintendo, 2006) há pouco mais de três anos, completo e quase novo, por R$ 29,70 e é um dos jogos que mais amo no Wii.

Crie listas de desejo, pesquise preços e seja paciente

Criar listas de desejo é uma dica quentíssima, e minha maior aliada na construção da minha coleção. Minha lista de desejos vai dos jogos retro até futuros lançamentos. Se eu sei que games quero comprar, posso estimar quanto irei gastar, quais são os itens prioritários, quanto tempo levarei para adquirir aqueles jogos e, inclusive, repensar alguns que, depois de um tempo, acabo perdendo o interesse e deletando da lista. Por isso, crie listas dos jogos que você quer colecionar, seja os que gostava quando era criança, as franquias que mais ama, ou os que quer jogar agora.

Se você estiver nadando em dinheiro, pode meter o louco e comprar o que quiser. Mas a maioria de nós, meros mortais, deve colecionar com sabedoria. A pandemia nos proibiu de sair por aí em busca dos melhores preços e, mesmo se desse, com a correria da vida adulta, o mais fácil é comprar pela internet mesmo, pelo site ou WhatsApp das suas lojas favoritas, navegando pelo Mercado Livre ou em grupos nas redes sociais. Salvo exceções, sempre haverá alguém que tem os jogos que você quer, então se atente a quem está pedindo o menor preço, aproveite as promoções e negocie descontos com o vendedor. Uma dica é acompanhar a flutuação dos preços. Se você comprar dos EUA, pode usar o PriceCharting. Às vezes eu levo meses para adquirir um jogo, aguardando o melhor momento de compra. Já aconteceram várias ocasiões que, demorei tanto tempo pra decidir comprar, que outra pessoa ficou com o game… mas não se preocupe, eles sempre reaparecem.

Fique por dentro dos lançamentos

A dica mais complicada desse post é, de longe, ficar atento à movimentação das developers e tentar antecipar os lançamentos. Sejam remasterizações, remakes de jogos retro, relançamentos, sequências, edições comemorativas ou até sucessores espirituais, basta a desenvolvedora anunciar uma novidade, que tudo relacionado àquele game aumenta imediatamente de preço. Isso acontece pelo simples motivo que as pessoas voltam sua atenção e seu interesse a eles… mais pessoas querendo um item, eleva seu valor.

Essa realidade é mais cruel quando falamos de games das antigas. Às vezes, são jogos que já custam caro, e acabam ficando ainda mais caros à luz de lançamentos que impulsionam sua procura. Quer alguns exemplos? Os lançamentos de Stardew Valley (Eric Barone, 2016), de Resident Evil 2 Remake (Capcom, 2019), de Streets of Rage 4 (DotEmu, 2020) e de Alex Kidd in Miracle World DX (Jankenteam, 2021), o 30º aniversário do Sonic e o lançamento da coleção LucasFilm Classic Games, todos, fizeram aumentar consideravelmente os preços dos discos e cartuchos originais, em sua maioria lançados há pelo menos duas décadas.

Fique de olhos bem abertos e tente antecipar os lançamentos. E se as developers anunciarem uma sequência, ou uma versão remasterizada de um game antigo que está na sua lista, dê prioridade pra comprá-lo antes que o preço aumente.

Não pire nos jogos CIB

Eu sei. Jogos completos com caixa de papelão, manual e até os folhetos de propaganda têm uma beleza hipnotizante. Seja porque as artes são lindas e evocam o espírito do game, seja porque são um tanto difíceis de encontrar, ou até porque lhe transportam de volta a uma época mais simples, jogos completos na caixa (CIB, do Inglês “complete in box”) têm um apelo e destaque em qualquer coleção. Eu tenho alguns jogos antigos CIB, mas não faço coleção deles… peguei quase que por acaso.

Colecionar jogos CIB é uma brincadeira caríssima, os preços estão ridículos para a maioria dos jogos completos com caixa, ainda mais no Brasil, onde a oferta é escassa. A maioria dos jogos CIB são trazidos de fora, o que encarece muito, mas mesmo jogos fabricados aqui, como os antigos da Tec Toy, Polyvox, Playtronic e Gradiente, por exemplo, costumam sair por preços elevados. Há motivos, mas não sei se justificam. Você pode economizar uma quantia insana de dinheiro se comprar cartuchos soltos (ou “loose“, em Inglês).

Alguns de meus jogos CIB de várias gerações

Agora, se quiser muito exibir sua coleção na prateleira, ou fazer um fundo legal para os seus vídeos no YouTube (se esse for seu lance) pode encontrar muitas opções de caixas customizadas na internet. Elas custam muito barato e podem te satisfazer. Eu nunca comprei, mas já fiz minhas próprias capas customizadas em algumas ocasiões (como essa e essa).

Não dispense os jogos “usados”

Confesso que esse conselho é o clássico “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”. Todos os jogos da minha coleção eu compro em absoluto e perfeito estado. Mas é porque eu sou neurótico, ok? Só que você não precisa ser! E irá economizar muito dinheiro se comprar jogos usados, tipo de locadora, meio “batidinhos” ou sujinhos, com umas marquinhas aqui e ali. Tem muita gente que não se importa com marcas de uso, e só quer jogar! No entanto, se você se importa e quer uma coleção restaurada, tem umas coisas que você pode fazer:

  • Muitos problemas cosméticos podem ser corrigidos: todos os jogos que eu compro, mesmo em melhores condições, passam por um ritual de limpeza. Porém, alguns precisam de mais carinho. Veja neste link algumas dicas de limpeza. Meus grandes aliados são o álcool, a escova de dentes, o Tira Grude e a paciência;
  • Marcas do passado dão charme ao game: tem quem goste de preservar a “história” daquele game que entrou pra coleção. O adesivo de uma locadora que não existe mais, o preço do game na época, ou até o nome que o antigo dono escreveu com caneta permanente.
  • Pense que você está “adotando” um jogo surrado: seja para preservar as marcas do passado, ou dar muito carinho e cuidado ao novo game da coleção, comprar um jogo em estado de usado é como uma adoção, uma boa ação que você fez dando um novo lar a um item que outros jogadores preferiram ignorar.

Jogue a versão digital antes de comprar mídia física

Essa dica me ajuda desde que comecei a colecionar, seja para relembrar games retro ou experimentar os lançamentos. Com preços tão altos, vale a pena testar antes de comprar, não é mesmo? Jogos antigos são fáceis de testar, basta um emulador ou até pegar baratinho nas inúmeras lojas virtuais no PC ou seu console favorito. Para testar jogos modernos é preciso a developer ter soltado uma demo, estratégia que parece estar voltando com força! Se não, algumas horas de let’s plays no YouTube podem ajudar na tomada de decisão. Você pode assinar o serviço on-line do seu console favorito para ter acesso a inúmeros games digitais. Você também pode, por exemplo, experimentar o jogo na Steam e depois comprar pra coleção. Em último caso, principalmente com jogos mais “raros”, rola até piratear um tiquinho para experimentar antes de comprar o game original. Não me julgue! Quem nunca fez isso, que atire a primeira pedra. 😂

O Raspberry Pi é uma forma bem elegante de emular games retro

Dois exemplos que me vêm à cabeça, de games que peguei digital antes de incluir na coleção, são Dragon Warrior (Chunsoft, 1986) que eu joguei no emulador antes de comprar o cartucho do NES, e Hyper Light Drifter (Heart Machine, 2016) que eu peguei super barato na eShop e, após jogar por vários dias, decidi comprar a edição física publicada pela Limited Run. Eu acho super importante pesquisar muito e experimentar o máximo antes de tomar a decisão de botar – ou não – a mão no bolso. Mesmo assim, alguns jogos, como Evoland (Shiro Games, 2013) e Blasphemous (The Game Kitchen, 2019) custando ±R$ 950, só vai dar pra jogar digitalmente mesmo. 😅

Colecione as edições mais recentes

Hoje é possível encontrar praticamente qualquer jogo em formato digital, ou até ports, relançamentos e remasterizações. As pequenas e as grandes developers estão surfando essa onda! Basta navegar na PSN, na XBox Live, na eShop, na Steam, na GOG e em outras lojas virtuais para encontrar tudo que você puder puxar da memória e até mais. Ou então, como mencionei há pouco, acompanhar os lançamentos das desenvolvedoras nos consoles da atual geração.

Relançamentos de jogos antigos, remasterizações e até ports para sistemas mais novos custam, sempre, mais baratos que as edições originais. Simplesmente porque chegam às lojas pelo preço normal de qualquer lançamento.

Expanda sua coleção com compilados de games

Durante toda história dos games, as developers têm lançado compilados de seus jogos, permitindo você comprar mais por menos. Quem poderia esquecer dos extraordinários Super Mario All-Stars (Nintendo, 1993), Rare Replay (Microsoft Studios, 2015), The Orange Box (Valve Corporation, 2007) e Halo: The Master Chief Collection (343 Industries, 2014) só para citar alguns? E os estúdios continuam lançando compilados hoje em dia, de games das antigas ou modernos, em todas as plataformas imagináveis. Se quiser um exemplo: recentemente joguei, com minha namorada, vários Resident Evil no Nintendo Switch, e só precisei comprar dois cartuchos para ter acesso a cinco jogos da franquia.

Compilados de games são ótimos para aumentar rapidamente sua coleção, (re)descobrir jóias escondidas e economizar espaço, gastando pouco. Compilações costumam até custar mais barato do que os outros jogos do mesmo console 😱 Você vai economizar muito dinheiro se contabilizar o quanto gastaria comprando cada título separado.

Super NES Classic Edition

Uma alternativa interessante, especialmente se você deseja uma experiência de jogo mais autêntica, é jogar no hardware “original” por meios alternativos, o famoso console mini. Embora já existissem antes, foi a Nintendo quem lançou a febre dos mini consoles com o NES Classic Edition (Nintendo PTD, 2016) e depois o Super NES Classic Edition, de 2017. As outras empresas responderam com o Mega Drive Mini (Sega, 2019), o PlayStation Classic (Sony, 2018) e até a versão mais recente do Atari Flashback (ATGames, 2004-2019), entre outros. Hoje o mercado está cheio de consoles mini, com seleções fenomenais de games e, o melhor, controles originais e adaptados ao mundo moderno.

Entenda que há itens que você precisa deixar passar

Essa é dura de aceitar, mas é um mindset importante. É literalmente impossível para a imensa maioria de nós colecionar todos os itens que queremos. Edições limitadas, games regionais exclusivos, itens raros a preços despropositados, etc. Há jogos e acessórios fora do alcance da maioria de nós. Eu, por exemplo, amaria ter um Nintendo 64DD mesmo sem nenhum jogo, mas é ridiculamente caro e impraticável. E tudo bem! Eu posso curtir o sistema assistindo vídeos no YouTube, ou ver de perto nas oportunidades de visitar uma exposição, por exemplo. Aceitar que há itens que jamais teremos faz parte, e libera nossa cabeça e nossos planos para o que é possível, permitindo construir a coleção sem utopias.

Os preços algum dia cairão?

É inteiramente possível, mas pouco provável. Nos últimos anos – especialmente por causa do crescimento da popularidade dos games, que movimentou os preços graças à chegada de novos jogadores e colecionadores, e o aumento do interesse e procura impulsionados pelo YouTube e pela cultura geek chegando ao mainstream, e até por causa da pandemia – testemunhamos uma transformação drástica no hábito de colecionar. Quem imaginaria que nosso humilde passatempo chegaria a esse ponto? Por isso, espero que essas dicas e sugestões sirvam de inspiração e incentivo para você começar ou continuar sua coleção, até onde estiver ao seu alcance. Me conte, você tem alguma dica que eu não falei aqui? Acha que voltará a ser mais fácil colecionar no futuro? Deixe seu comentário.

Flávio

Me formei na faculdade de Design em 2007, sou apaixonado pela minha profissão, por rock'n'roll, cozinhar, jogar video game, por Star Wars e hamburger. Colaborador do Greenpeace e Médicos Sem Fronteiras.

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