Ritmo alucinante e muitas mortes no sádico Crypt of the NecroDancer

Roguelike é um subgênero do RPG no qual você explora cavernas e calabouços gerados de forma aleatória ou procedural, matando monstros e coletando tesouros; rhythm game é sobre apertar botões no ritmo da música. Nada a ver uma coisa com a outra, né? Mesmo assim, um pequeno estúdio canadense experimentou juntar os dois*.

O resultado é Crypt of the NecroDancer (Brace Yourself Games, 2015), que em 2018 ganhou versão para o Nintendo Switch e é a que joguei. Do gênero roguelike o jogo empresta seus fundamentos; a jovem aventureira Cadence deve explorar cinco calabouços – cada um com quatro níveis – gerados randomicamente, enquanto tenta reencontrar o pai e recuperar seu coração roubado pelo vilão NecroDancer. Do gênero musical vem seu diferencial, porque Cadence e tudo que a rodeia – inimigos, armadilhas e até o chão das fases – se movimenta na batida da música, e você deve manter o compasso ou terá muitos problemas.

*Esse não é o primeiro game a misturar mecânicas do gênero musical rítmico com outro gênero de forma inovadora. O excelente Beat Sneak Bandit (Simogo, 2012) fez algo parecido, com uma aventura stealth super carismática e desafiadora para iPhone.

Trilha sonora espetacular

O sucesso – ou fracasso – de qualquer jogo de ritmo é totalmente dependente de uma trilha sonora de peso e, neste caso, temos um gigante. Composta por Danny Baranowsky, que também criou para Super Meat Boy (Team Meat, 2010) e The Binding of Isaac (Edmund McMillen, 2011), a trilha sonora de Crypt of the NecroDancer é uma mistura épica de chiptune rock e música eletrônica.

Há uma grande variedade temática, todas as faixas são memoráveis, cativantes e pegajosas, charmosas, divertidas e mostram o talento do compositor. Além disso, nos deixa com os nervos à flor da pele, com cada “bum bum bum” amplificando a jogabilidade frenética. A pegada dançante não deveria combinar com um dungeon crawler mas ah, como combina!, e nem é o caso de que a música não funciona sem o jogo, dá vontade de ouvir a trilha sonora de Crypt of the NecroDancer o tempo todo. Uma obra-prima!

E se você quer mais, o jogo também conta com covers heavy metal compostas pelo youtuber Jules Conroy e covers retro por Jake Kaufman, compositor do clássico contemporâneo Shovel Knight (Yacht Club Games, 2014).

Dificuldade elevada

O jogo é extremamente desafiador. Seu conceito é genial, mas a curva de aprendizado é muito alta. O tutorial ensina como se mover no ritmo da música. Todo o resto – como usar os itens, as diferentes armas, como os inimigos se movem, como derrotá-los, etc. – você tem que descobrir sozinho, e Crypt of the NecroDancer não te dá tempo pra isso! Ele te joga na jaula dos leões (ou dragões?) e boa sorte.

Por causa dessa crítica decisão de game design, herdada do roguelike e impassível com principiantes, passei as primeiras horas bem frustrado. De fato, minhas primeiras horas de jogatina foram distribuídas ao longo de vários dias, porque eu não conseguia jogar mais que 20 ou 30 minutos, dado meu desgosto com o game. Eu não avançava, não passava do segundo nível da primeira caverna! Foi só após trocar de personagem, da Cadence pelo Bard, que pode se movimentar fora do ritmo da música, que comecei a entender os padrões dos inimigos, progredir no jogo e curtir Crypt of the NecroDancer!

Dali em diante, cada fase vencida me dava uma satisfação inexplicável, um alívio com sentimento real de que, com minhas novas habilidades, era possível superar os obstáculos! Mas ainda morria bastante. Mesmo assim, o Bard me permitiu explorar sem pressa as mecânicas do jogo com a curva de aprendizado suave que eu queria, e me deixou confiante para enfrentar o game com a protagonista Cadence, obrigatória para avançar na história.

A versão para Nintendo Switch possui multiplayer cooperativo local. É só pegar um par de controles, um amigo e se jogar na aventura. Além disso, essa versão já conta com a nova zona, uma dezena de personagens jogáveis – cada um com habilidades e mecânicas diferentes, que deixam o jogo beeem desafiador para quem já adquiriu experiência –, uma centena de músicas e outros conteúdos do DLC Amplified, de 2017, vendido separadamente nas outras plataformas. O Nintendo Switch também é lar do exclusivo crossover Cadence of Hyrule: Crypt of the NecroDancer Featuring The Legend of Zelda (Brace Yourself Games, 2019), que traz o conceito e mecânica do jogo para o universo de Link e Zelda.

Considerando a combinação peculiar dos dois gêneros que fazem o jogo, Crypt of the NecroDancer certamente não é para qualquer um. A dificuldade é elevada, mas também oferece um sentimento de realização, e que as habilidades do jogador perseveraram sobre os obstáculos. Além disso, há vários outros modos de jogo e inúmeros desafios para os masoquistas. Crypt of the NecroDancer pode ser impiedoso, mas supere suas frustrações e você vai se ver viciado nessa aventura… só esteja pronto para morrer bastante.

Flávio

Me formei na faculdade de Design em 2007, sou apaixonado pela minha profissão, por rock'n'roll, cozinhar, jogar video game, por Star Wars e hamburger. Colaborador do Greenpeace e Médicos Sem Fronteiras.

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