The Way: Remastered, uma viagem extraterrestre em busca da imortalidade

Há um tempo eu estava na eShop do Nintendo Switch procurando algo em promoção, quando me chamou a atenção um game que achei ser a remasterização de algum clássico cult dos anos 90. Os gráficos fizeram brilhar meus olhos, eu gosto da temática sci-fi, estava barato e eu pensei “por quê não…?” sem imaginar que ficaria tão encantado com a aventura.

The Way: Remastered (Puzzling Dream, 2019) narra a história de um explorador espacial chamado Major Tom*, viúvo incapaz de aceitar a morte da esposa. Em posse do cadáver roubado e preservado criogenicamente, e apoiado em antigas escrituras que parecem conter os segredos da vida eterna, Tom retorna ao planeta alienígena que tirou a vida de sua amada, para dedicar sua própria vida a encontrar uma forma de trazê-la de volta.

*O nome Major Tom faz uma óbvia referência ao personagem homônimo criado pelo músico britânico David Bowie, mencionado nas canções Space Oddity, Ashes to Ashes e Hallo Spaceboy. Se você ainda duvidar, uma das conquistas do jogo é intitulada “Major Tom to Ground Control”.

The Way aposta fortemente na narrativa visual, com cutscenes e diálogos quase ausentes. Eu gosto de pensar que é para transmitir ainda mais a sensação de solitude e luto, e afastar-se do clichê do protagonista que “pensa em voz alta”, mas vale comentar que, desta forma, o enredo pode causar alguma confusão. Imergir no game e prestar atenção na ordem dos acontecimentos é essencial para curtir The Way em sua totalidade, mas é fácil se perder graças à não-linearidade. Há duas linhas-do-tempo rolando: a principal, no presente, que o jogador participa ativamente como Tom e estende-se por muitos anos; e sete flashbacks que contam o passado do casal. Além disso, a curta duração do jogo – cerca de 5 horas – passa a falsa sensação de que os eventos aconteceram em um curto espaço de tempo quando, na verdade, se esticam por algumas décadas.

A premissa é interessante e a história de The Way bem contada. Infelizmente, o final desaponta um pouco, especialmente porque o jogador deve fazer uma escolha moral, dentre duas opções, mas nenhuma é verdadeiramente satisfatória. Eu gostaria que os escritores tivessem conduzido o jogador às profundezas de sua própria consciência e trabalhado melhor questões filosóficas sobre a vida, a morte e o amor para que, quando chegasse a hora, a decisão a ser tomada tivesse um peso real.

Os puzzles representam a maior porção do conteúdo do jogo. Simples mas variados e engenhosos, são quebra-cabeças familiares à maioria dos jogadores, dos tipos “mova as peças”, “ordene os símbolos”, “ligue os pontos”, coisas assim… embora façam uso de mecânicas únicas, quatro poderes que o protagonista ganha ao longo da aventura: um gera um escudo de energia, outro permite teletransportar-se, outro permite ativar diferentes mecanismos alienígenas, e o último dá o poder da telecinesia.

Jogadores que temem puzzles e exercícios de raciocínio podem ficar sossegados. O jogo reintroduz as mecânicas sempre que elas são a chave para a resolução de algum quebra-cabeça. Uma coisa que achei legal em The Way: Remastered foram dois casos em que eu estava realmente travado tentando resolver algum puzzle, já havia falhado algumas vezes, quando Major Tom soltou uma frase dando uma pequena “dica” de como soluciona-lo. Um detalhe charmoso e de grande utilidade.

Em quatro ou cinco ocasiões, no entanto, aconteceu um bug misterioso que impediu meu progresso. Por exemplo, na fase Mind Force Temple resolvi sem problemas o puzzle do projetor, mas o jogo não liberou a porta trancada nem o cristal; em outro caso, na fase East Generator, a passagem para a caçamba de minério estava liberada, mas aquela travava na porta mesmo assim. A única forma que encontrei para resolver esses bugs foi a opção “Emergency restart” no menu de pausa, que implica recomeçar a fase e perder dezenas de minutos, às vezes até mais de uma hora de jogo. Essa opção no menu foi a forma que a developer encontrou de “contornar” o problema mas, na minha opinião, um jogo de 5 anos de idade (o original saiu em 2016) não deveria ter bug nenhum – sem esquecermos que essa é a versão “remasterizada”.

Tal qual tantos outros jogos indie, The Way se apresenta pela estética retrô – eu achei que era um jogo point and click dos anos 90, dada sua semelhança com Out of This World (Delphine Software, 1991) –. A direção de arte não é da mais original, mas os gráficos são muito bem feitos, agraciados com um trabalho espetacular de pixel art. Os cenários são hiper detalhados e saltam aos olhos a despeito das limitações de trabalhar com poucos pixels. Eles têm vida, com pequenos detalhes e movimentos que deixam-nos mais orgânicos, como folhas que balançam com leveza, animais que se escondem quando nos aproximamos, e até poeira levada pelo vento. Como comentei no primeiro parágrafo, foi o que me chamou mais atenção.

A trilha sonora, composta por Panu Talus integralmente com música ambiente synth, não é marcante nem memorável, mas faz total sentido na aventura e abraça a ideia de solitude, de “explorar o desconhecido”. É misteriosa, sombria, minimalista, intimista e embala o jogador na imersão completa no jogo.

Em certa parte do jogo, o jogador passa a ser acompanhado por Tincan*, uma fera alienígena que Tom salva quando ainda era filhote. Esse lhe ajudará em algumas situações pré-determinadas, defendendo o protagonista do ataque de um inimigo, ou servindo como plataforma para alcançar um lugar mais alto. Infelizmente, sua participação na aventura é tão limitada quanto tediosa e até problemática: houveram casos que eu queria passar por um lugar e necessitava da ajuda de Tincan, mas o monstro estava muito lá atrás e me vi obrigado a esperar que ele chegasse e, acredite, a fera não tem muita pressa 🙄; e há casos também que ele travou em algum lugar, sumiu da tela e não me acompanhou, o que tornou impossível que o companheiro viesse ajudar.

*O nome Tincan também faz referência à música Space Oddity, de David Bowie. Há um verso que ele canta “For here, am I sitting in a tin can, far above the world”.

Ignorando os pequenos bugs, eu recomendo The Way: Remastered a qualquer um que goste de aventuras espaciais ou sinta saudades dos cinematic platformers que marcaram época na década de 90. O trabalho gráfico minucioso e atenção aos detalhes em cada um dos locais maravilhosos que o jogador explora, o enredo misterioso e interessante, a trilha sonora discreta e os puzzles divertidos são garantia de manter o jogador engajado do início ao fim.

Flávio

Me formei na faculdade de Design em 2007, sou apaixonado pela minha profissão, por rock'n'roll, cozinhar, jogar video game, por Star Wars e hamburger. Colaborador do Greenpeace e Médicos Sem Fronteiras.

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