Velocidade e nostalgia em 80’s OVERDRIVE

Durante meses fui atormentado pela indecisão de comprar ou não 80’s OVERDRIVE (Insane Code, 2017) na eShop do Nintendo Switch – eu preferia o game no Nintendo 3DS, mas já não é mais possível colocar créditos na eShop do portátil –, mas achava um pouco caro e era isso que me segurava. Certo dia entrou em promoção e caiu de US$ 9,99 para míseros US$ 2,99 então, finalmente, decidi dar uma chance, e o jogo é bom!

Inspirado nos jogos de corrida mais populares dos anos oitenta e noventa, em 80’s OVERDRIVE você acelera por longas rodovias, passando por cenários que vão de praias ensolaradas a cidades retro-futuristas, dividindo a estrada com competidores ferozes, veículos de passeio cujo único propósito é tirar você da pista, e também a polícia, que aparecerá para te parar a qualquer custo.

No modo carreira, seu objetivo é tornar-se o piloto número 1. Você escolhe uma pista, paga a taxa e acelera na esperança de ganhar o prêmio, chegando entre os três primeiros colocados. Se vencer a corrida, novas pistas ficam disponíveis, de um total de 35. É preciso ficar de olho no estado do carro e no nível da gasolina para estar em condições de encarar o próximo desafio, sem correr o risco de parar pelo caminho. Também é preciso melhorar a performance do possante para se manter competitivo. Só tome cuidado para não gastar todo seu dinheiro, senão você não poderá pagar a taxa de entrada da corrida, e será forçado a fazer um bocado de grind nas corridas mais fáceis ou até lavar carros para levantar uns trocados.

O modo Time Attack é bem parecido com Out Run (Sega, 1986) e você corre contra o relógio, tentando cruzar o próximo checkpoint e chegar o mais longe possível antes de o tempo acabar. Cada checkpoint fica mais distante do anterior, mas há um truque para ganhar mais tempo! Tirar uma fina dos veículos na estrada dá um, dois ou três segundos a mais, segundos preciosos que vão fazer toda diferença. Porém, nessa estratégia fica claro o maior defeito de 80’s OVERDRIVE: o hit detection é péssimo, a hit box parece maior que o carro e atrapalha nas piores horas. Para ganhar o bônus de tempo você tem que passar muito, muito perto e, mesmo sem encostar no veículo ultrapassado, às vezes você bate “no nada” (veja no GIF 🤬).

Meu modo favorito é o modo carreira, porque eu gosto de jogar e ver meu progresso acontecendo. No entanto, uma vez que você é o número 1, 80’s OVERDRIVE não tem muita rejogabilidade. As pistas são repetitivas e, embora hajam desafios extras, como coletar fitas VHS na pista ou detonar um oponente, por exemplo, uma vez que você viu tudo, não há motivo para criar um novo save. Há um modo de “criação” de pistas que na verdade não é bem criação, é mais um “gerador” de pistas. Ele permite que você defina os parâmetros como extensão da pista, volume de tráfego, quantidade de curvas e morros. Aí é só dar um nome, salvar e compartilhar. É legal ter esse modo pra chacoalhar um pouco as coisas, mas seria muito mais legal se você pudesse usar a criatividade e adicionar segmentos da pista um a um.

A jogabilidade é super simples e intuitiva, e 80’s OVERDRIVE consegue emular direitinho os jogos de corrida 16-bit, porém com uma sensação de velocidade menor – nada que empobreça a experiência. Os controles são bem ajustados, o carro responde imediatamente aos comandos e, como todo bom jogo de corrida estilo arcade, você acelera despreocupado e só mete o pé nos freios uma vez na vida e outra na morte. Infelizmente há o problema do hit detection mencionado acima mas, fora isso, os carros são bem gostosos de pilotar.

O ponto mais forte de 80’s OVERDRIVE, que me me deixou interessado no game, são os gráficos impregnados pelas cores neon oitentistas. A estética synthwave não é nada original – os games já a tem explorado, pelo menos, desde Hotline Miami (Dennaton Games, 2012) e Far Cry: Blood Dragon (Ubisoft, 2013) – mas cai como uma luva e é perfeita para a proposta do jogo, deixando uma ótima impressão. Os cenários são super coloridos com azuis e cianos brilhantes, roxos e rosas chocantes, verdes eletrizantes e tons de outono para quebrar o padrão.

A título de curiosidade: a estética synthwave relembra elementos da era do padrão CGA. Bem no início dos jogos de computador, a primeira placa de vídeo capaz de gerar imagens coloridas era a Color Graphics Adapter (CGA) da IBM que, por questões técnicas, exibia no máximo duas cores – magenta e ciano – além de preto e branco. Isso deu à maioria dos games da época um visual bem distinto. Além disso, gráficos wireframe, luzes neon e outros elementos típicos dos arcades, do nascimento da MTV e etc. também são resgatados.

Pra completar com muito bom humor o pacote estético de 80’s OVERDRIVE, os desenvolvedores escolheram um leque de avatares como nenhum outro: são versões inconfundíveis da cantora Madonna, dos viajantes no tempo T-800 e Marty McFly, do brutamontes sem tempo pra jibber jabber Mr. T, do maior bigode da história Tom Selleck e o meu favorito, o maluco do pedaço Will Smith, entre outros. Eles são meras inspirações, por razões óbvias de direitos de imagem, mas são tão parecidos que não enganam ninguém.

Como você já deve imaginar, um game como esse exige trilha sonora eletrônica direto dos anos 80, e é justamente o que acontece em 80’s OVERDRIVE. São 18 músicas compostas por seis artistas – a maioria deles polacos, como a própria developer – e mantém uma boa qualidade, embora eu prefira as faixas mais agitadas e menos ambiente. Infelizmente, nenhuma delas é interessante o suficiente, uma pena.

80’s OVERDRIVE é um jogo de corrida retro pensado para um nicho beeeem específico de jogadores, aqueles com uma nostalgia forte pelos Top Gear e Out Run de outrora, e não deve conquistar muitos outros jogadores… tem que estar muito no clima pra embarcar de verdade em 80’s OVERDRIVE mas, se essa for sua vibe, vai fundo! A simplicidade do gameplay é garantia de algumas horas de diversão, os gráficos são um deleite e o fator nostálgico vai às alturas. Mas, se sua sede por jogos de corrida retrô estiver insaciável, melhor jogar Horizon Chase Turbo que, apesar de custar mais caro, é significantemente superior em todos os aspectos, incluindo controles, quantidade de conteúdo e até sensação de velocidade. Fora que foi feito por um estúdio brasileiro, né.

Flávio

Me formei na faculdade de Design em 2007, sou apaixonado pela minha profissão, por rock'n'roll, cozinhar, jogar video game, por Star Wars e hamburger. Colaborador do Greenpeace e Médicos Sem Fronteiras.

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