UPDATE, 11 de julho: se passou um único dia, após a publicação deste post, até a Heritage Auctions anunciar uma cópia lacrada de Super Mario 64 (Nintendo, 1996), avaliada pela Wata Games como 9.8 de 10, arrematada pelo valor recorde de US$ 1.56 milhão.

Já virou moda. Ontem (09/07) saiu a notícia de um cartucho da pré-primeira edição de The Legend of Zelda (Nintendo, 1986) arrematado em leilão por estonteantes US$ 870.000 no site americano Heritage Auctions. Essa notícia me deixa tão boquiaberto quanto furioso! Por quê? Você pergunta. Porque esse tipo de notícia confunde o público, inflaciona o mercado dos games como um todo e complica o hobby de quem coleciona.

Em 2019 testemunhamos o primeiro cartucho de video game a alcançar seis dígitos em um leilão, uma cópia raríssima de Super Mario Bros (Nintendo, 1985) de quando New York e Los Angeles foram mercados teste da Big N, isto é, precede o lançamento oficial do NES nos Estados Unidos. Há meros três meses, vimos um irmão mais novo arrematado por seis vezes mais! E, graças ao tsunami que a Heritage Auctions está surfando, não demorará até sermos apresentados ao primeiro game a bater a marca de US$ 1 milhão em leilão, pode anotar.

Muito longe de colecionismo ou nostalgia, o que acontece é que esses jogos de centenas de milhares de dólares ficam passando de mão em mão por um grupo seleto de investidores cujo objetivo é valorizar o item e aumentar o interesse das pessoas naquele objeto em particular. Não é incomum que, após uma transação como essa, o comprador ou grupo de compradores recoloque imediatamente o game arrematado à venda, no próprio site da Heritage Auctions, afim de aproveitar a atenção da mídia e revender, com uma boa porcentagem de lucro, a qualquer um disposto a pagar – antes mesmo de, sequer, botar as mãos no produto.

De acordo com o site Ars Technica, o lance inicial do cartucho The Legend of Zelda foi de US$ 110.000. Foram feitos apenas 44 lances, com incremento médio de US$ 17.000. Isso significa que não foi um game que começou com um preço baixo e acabou super disputado por dois ou três compradores até alcançar o valor final de arremate. Se fosse esse o caso, tudo bem… mas não foi. Então, quem definiu o lance inicial em mais de cem mil dólares e por quê esse valor?

Jogo Super Mario Bros. vendido, em abril, por US$ 660.000 no site Heritage Auctions.

Há, possivelmente*, uma espécie de “colaboração” entre esses grupos seletos de investidores para aumentar os lances progressivamente. Esse “esquema” é muito comum – e a gente sabe! – em leilões de arcades e pinballs, em que colecionadores que já possuem a máquina leiloada também dão lances, a fim de inflacionar o preço final do jogo leiloado e, como consequência, o valor das suas próprias máquinas. Essa estratégia “valida” o item e protege o investimento inicial daquele colecionador.

*Um dos investidores do grupo que arrematou, em 2019, o Super Mario Bros. de 100 mil dólares, que falei nesse post, é sócio-fundador da Heritage Auctions. Não é mera coincidência, claro.

Jogo The Legend of Zelda vendido por US$ 870.000 no site de leilões Heritage Auctions.

A consequência para o gamer comum, especialmente o colecionador retro, é que o preço dos mesmos games e outros semelhantes acaba aumentando, já que os vendedores aproveitam a oportunidade que surge com a “bolha” criada nos leilões, e até jogadores que revendem seus próprios games por um preço alto, acompanhando uma porcentagem do valor já inflado cobrado pelas lojas.

É estúpido achar que, só porque um game foi leiloado por centenas de milhares de dólares, aquela sua cópia que passou as últimas décadas guardada no armário valha alguma coisa! Não me entenda mal… quem vende não está errado, e quem compra, compra porque quer; mas a influência dessa “bolha” no mundo dos games é terrível.

A avaliadora americana Wata Games, o site Heritage Auctions e outras empresas endossam esse tipo de ação no mercado dos games porque eles também ganham muito dinheiro, já que os itens de centenas de milhares de dólares são sempre verificados, avaliados e vendidos pelas mesmas empresas. A Heritage ganha com as taxas que cobram pelas vendas, e a Wata ganha com a taxa cobrada pela avaliação e a gigantesca fila de espera (hoje cerca de 4 ou 5 meses) de games a ser avaliados. A enorme cobertura da mídia especializada também colabora para que essas poucas empresas lucrem ainda mais. Parece mentira, mas isso repercute até no mercado nacional, basta ver os games avaliados que, de vez em quando, dão as caras no Mercado Livre e grupos/fóruns de retrogames brasileiros. Isso é ridículo.

O papel de sites como o Heritage Auctions é desenvolver um modelo de tomada de decisão, baseado em valores, que elimine o fator emocional ou nostálgico, e dê ao cliente a confiança de que suas compras de games representam um investimento. É assim que se faz crescer a base de compradores e girar essas quantias estonteantes de dinheiro. Mas, na minha opinião, falta transparência e responsabilidade das empresas responsáveis pela avaliação dos games e pelos leilões em esclarecer ao público geral os motivos reais por trás dos preços de cada item, e até quantas cópias foram originalmente produzidas daquele item em particular.

O que é entretenimento para a maioria, se torna investimento para o 1% que tem recursos para participar dos leilões e investir nessa “bolha” que eles criaram e fazem questão de nutrir, quebrando recorde atrás de recorde. Mas sério… nem adianta revirar seu armário por antigas cópias de The Legend of Zelda e outros jogos, porque eles não valem esses preços absurdos que a gente vê nas notícias. O que me chateia é que, infelizmente, a inflação dos preços dos games é uma tendência que tem se tornado algo natural no mercado e na comunidade gamer.

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