Jogo macabro: a história do tabuleiro Ouija

Poucos jogos na história da humanidade despertam tanta curiosidade e medo quanto o tabuleiro Ouija. Associado à quebra das barreiras entre os reinos dos vivos e dos mortos, muitos o vêem como um instrumento para invocar espíritos e demônios, enquanto outros brincam com a ideia de se comunicar com “o outro lado”. O jogo está presente em histórias de terror, no imaginário popular e em certas práticas espirituais há mais de 100 anos mas, apesar da fama, a maioria não conhece sua verdadeira história. Com o Halloween se aproximando, a época é propícia para essa interessantíssima história:

Os precedentes do tabuleiro Ouija

De acordo com a Smithsonian Magazine, periódico oficial da instituição educacional e de pesquisa estadunidense, o tabuleiro Ouija tem raízes no “Espiritualismo”, movimento baseado em evidências da existência dos espíritos dos mortos, e sua capacidade e inclinação para se comunicar com os vivos. As primeiras manifestações se deram em 1848, nos Estados Unidos, pela mediunidade da jovem Catherine Fox, de 11 anos, que recebia mensagens dos espíritos através da tiptologia, isto é, por meio de batidas nas paredes. O que parecia brincadeira da menina, descobriu-se, que a manifestação era inteligente, respondendo com lógica às questões formuladas. Isso chamou a atenção dos cientistas, criando-se, em 1851, uma comissão para estudar tais fenômenos.

Salão parisiense com pessoas praticando variações das mesas girantes. (L’Illustration, Histoire de la semaine, 14 de maio de 1853)

Dos EUA, em 1852, esses estudos chegaram à Europa, bem mais desenvolvida cientificamente. A Era Vitoriana foi uma época de imenso progresso científico e tecnológico, mas muitos vitorianos eram propensos ao paranormal, ao sobrenatural, ao oculto e, particularmente aqueles que começaram a abandonar a religião convencional, acreditavam fervorosamente no Espiritualismo. O movimento se tornou parte da subcultura vitoriana com a evidência de diversos médiuns (intermediários entre os espíritos e os homens) e a curiosidade da população transformou, o que eram estudos sérios, em diversão, em muitas capitais europeias, a exemplo das sessões públicas de “mesas girantes”, muito populares nos salões sociais da França e Inglaterra. Nessas sessões, um grupo de pessoas sentava-se em volta de uma mesa e, com as mãos sobre o tampo, esperavam que a mesa balançasse vigorosamente, inclinando-se e batendo os pés para responder às perguntas de “sim ou não” do grupo.

Prancheta usada para se comunicar com os espíritos

Esses fenômenos, juntos a outras tentativas de se comunicar com os espíritos dos mortos, como objetos para escrita automática, pêndulos, discos, cestos e etc., levaram à criação do “tabuleiro falante”. Nele haviam números, letras e uma prancheta – que se movimenta sob a influência energética do médium – para rabiscar ou apontar os caracteres. A prancheta, de acordo com registro do próprio Allan Kardec, codificador da Doutrina Espírita, foi inventada em 1853 e, embora não seja clara a autoria pela criação do tabuleiro falante, seus princípios e sua apresentação tornam seguros dizer que foi o precursor do tabuleiro Ouija.

Das sessões espíritas às lojas de brinquedo

Registro da patente do tabuleiro Ouija, no formato como conhecemos hoje.

As três décadas seguintes veriam inúmeras variações e evoluções do tabuleiro falante, produzidas de forma caseira ou por pequenos fabricantes, mas que só viria a se tornar um produto de sucesso comercial pelas mãos dos empresários americanos Charles Kennard e Elijah Bond. A dupla, que pouco se importavam com o aspecto espiritualista mas tinham faro para bons negócios, encontrou investidores e fundou a Kennard Novelty Company em 1890. Com a participação fundamental de Helen Peters, cunhada de Bond, conseguiram o registro da patente em fevereiro de 1891.

O jogo “Ouija, the Wonderful Talking Board” se tornou sucesso absoluto, no momento que chegou às lojas por US$ 1,50 em 1891. Ele representava um canal de reencontro com os espíritos de ancestrais falecidos, mas também uma brincadeira curiosa para se jogar em família. O tabuleiro Ouija começou a aparecer em sketches e matérias de jornais, e explodiu em popularidade nos anos seguintes. Apenas um ano após seu lançamento, a Kennard Novelty Company foi, de uma única fábrica em Baltimore, para duas fábricas em Baltimore, duas em New York, duas em Chicago e uma em Londres. Haja tabuleiro!

Em 1966, a Parker Brothers comprou os direitos do tabuleiro Ouija de seus criadores originais, e bateu a marca de dois milhões de tabuleiros vendidos em apenas um ano. Em 1991, a empresa foi comprada pela Hasbro, que continua a fabricar e vender centenas de milhares de tabuleiros até hoje, além de deter os direitos de uso do nome – isto significa que todos os filmes que incorporam o tabuleiro Ouija à narrativa, precisam pagar os direitos autorais à fabricante do “Meu Pequeno Pônei”.

De onde vem o nome Ouija?

Acredite se quiser, mas o nome do tabuleiro Ouija é tão envolto em mistérios quanto o próprio jogo. De acordo com um artigo de 1919, do extinto jornal Baltimore American, a história real é que Helen Peters, que tinha reputação de possuir forte mediunidade, participou de uma sessão espiritualista com Kennard e Bond. Durante a sessão, perguntou ao tabuleiro como este gostaria de ser chamado. O tabuleiro soletrou “O-U-I-J-A” e, quando perguntaram o que a palavra significava, a resposta foi “Boa sorte”.

A história também segue que, naquela mesma noite, Helen Peters estaria usando um pingente gravado com o rosto e o nome de Ouida, pseudônimo da escritora inglesa Marie Louise de la Ramée, cujos romances ela certamente apreciava – excêntrica e pomposa, Ouida foi muito popular e sua assinatura, aparentemente, se tornou uma espécie de talismã para mulheres de pensamento progressista da época, como Peters. Coincidência ou não, seus criadores sempre defenderam que foi o próprio tabuleiro quem sugeriu o nome.

O tabuleiro Ouija na cultura popular

Por mais de 80 anos, o tabuleiro Ouija foi visto com bons olhos, como um jogo inocente que, se não fosse por mera diversão e curiosidade, era capaz de trazer paz aos corações dos vivos que, por meio dele, comunicavam-se com seus entes queridos falecidos.

Mas em 1973 chegou aos cinemas O Exorcista*, dirigido por William Friedkin e escrito por William Peter Blatty, baseado no livro homônimo de sua autoria. Inspirado no caso real de um menino de Maryland, possuído em 1949, o clássico filme de terror, que conta a história da jovem Regan, possuída por um demônio antigo após brincar com o tabuleiro Ouija, fez espectadores do mundo inteiro borrarem as calças e mudou a fama do jogo.

Cena de O Exorcista, em que Regan quer apresentar o “Capitão Howdy”, disfarce do demônio Pazuzu, à sua mãe

Da noite para o dia, de instrumento para se comunicar com os mortos, o tabuleiro Ouija passou a ser visto como artefato de invocação demoníaca – e tudo que podia ser minimamente associado às forças do mal, como Dungeons & Dragons e até certos estilos musicais, também se tornaram demoníacos. De lá para cá, o tabuleiro Ouija se tornou figura central em centenas de histórias e filmes de terror, quase sempre envolvendo a possessão de algum personagem. Curiosamente, essa má fama despertou ainda mais o interesse de uma juventude rebelde que ousa brincar com o tabuleiro, em busca de emoção e uns bons sustos – embora o senso comum seja que qualquer pessoa que use o tabuleiro Ouija, deva fazê-lo com cautela e respeito. Alguns acreditam que ele possa ser uma fonte de conexão e iluminação, mas também se torne uma ferramenta perigosa nas mãos erradas.

Seja para receber mensagens dos que já partiram, vislumbrar o passado e o futuro, ou até atrair entidades perversas, o tabuleiro Ouija está consolidado na História. Foi fundamental na concepção da Doutrina Espírita, para acalmar os corações daqueles que perderam seus familiares prematuramente para doenças e pela guerra, e atraiu o interesse de curiosos e intelectuais. Hoje está no alto escalão das narrativas de horror, explorando nossos medos mais profundos de perder o controle sobre nossos corpos e permitir que uma entidade do mal os possua. Seja em uma sessão espírita ou na noite de Halloween, o tabuleiro Ouija permanecerá existindo no nosso imaginário.


Fontes

*O Exorcista não foi o primeiro filme a apresentar o tabuleiro Ouija como um portal para espíritos malignos. Nos primeiros minutos de Os Sussurros do Morcego (Roland West, 1930), a protagonista e sua criada usam o tabuleiro para determinar a causa dos misteriosos barulhos ouvidos em sua mansão, aparentemente, assombrada. O Solar das Almas Perdidas (Lewis Allen, 1944) conta a história de dois irmãos que, por meio de sessões espíritas com a “brincadeira do copo”, tentam descobrir a verdade por trás de uma morte em sua casa.

Flávio

Me formei na faculdade de Design em 2007, sou apaixonado pela minha profissão, por rock'n'roll, cozinhar, jogar video game, por Star Wars e hamburger. Colaborador do Greenpeace e Médicos Sem Fronteiras.

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