Sem palavras com Hyper Light Drifter!

Embora o visual tenha chamado muito minha atenção, à época de seu lançamento na Steam em 2016, até que demorei para finalmente jogar Hyper Light Drifter: Special Edition (Heart Machine, 2018), este belíssimo action RPG que evoca o que há de melhor nas eras 8-bit e 16-bit, transportado para o universo dos games contemporâneo.

Uma força sobrenatural devastou o mundo inteiro, matando a maioria de seus habitantes e reduzindo os povoados a meras ruínas. Os poucos sobreviventes contam histórias terríveis de violência e desespero e cabe a nosso herói, um drifter sem nome e enfermo, viajar os quatro cantos do mundo e desenterrar partes de uma tecnologia secular, que fechará o portal aberto por esse inimigo desconhecido, acabará com o Mal e devolverá o poder a um deus abatido, até aquele momento incapaz de proteger seu povo.


Contada por meio de cutscenes e quadrinhos sem diálogo, a história do jogo fornece um pano de fundo angustiante mas nebuloso para os eventos que seguirão, se faz aberta a interpretação e deixa no ar mais perguntas que respostas. Por mais envolvente que seja, não há dúvidas que existem muitas brechas narrativas em Hyper Light Drifter; o que é essa doença que aflige o protagonista? Quem é aquele cão que o acompanha? O que permitiu a ascensão dessa força diabólica? O mundo foi envenenado, e há uma cura? Os desenvolvedores certamente fizeram um excelente trabalho ao criar esse mundo alienígena fascinante onde nada é explicado com certeza; mas considerando que você tem que viajar grandes distâncias para revelar quaisquer pormenores que aprofundem a trama, nenhuma nova pílula narrativa parece valer o esforço, e você pode terminar Hyper Light Drifter com tantas interrogações quantas quando começou.

Por exemplo: provavelmente, o maior investimento do marketing foi em cima do fato que a história do game é uma metáfora sobre uma doença incurável – doença cardiovascular que aflige o próprio designer-chefe Alx Preston –, mas não tive essa sensibilidade e não pude me relacionar tanto quanto gostaria, em consequência de quão críptica é a história. Eu só juntei as peças depois de ler sobre o assunto.


A dificuldade de Hyper Light Drifter é intensa, sim, mas é uma dificuldade boa! Não há nenhum lance injusto ou punitivo, e as (constantes) mortes nunca são culpa do jogo, porém, o combate também não é um simples hack-and-slash… é uma dança para a qual você precisa aprender os passos. Conheça seus inimigos e não banque o herói: este é o segredo do sucesso. Embora a mecânica de combate e as lindas animações lhe encorajem a agir impulsivamente, aquela também exige precisão. Uma esquiva no momento errado pode significar a morte, por isto tente encarar um inimigo por vez e estude seus padrões de movimento. Os chefões podem parecer impossíveis no início, pois são necessários muitos golpes para tirar vida, mas leva tempo e dedicação para bolar a estratégia certa, e manter a sequência perfeita de esquivas e investidas para derrubá-los, um a um.

Hyper Light Drifter fornece, nas horas certas, as armas e habilidades necessárias para superar dificuldades aparentemente intransponíveis, contanto que o jogador esteja comprometido em usar com perfeição seu conjunto de habilidades. Não basta esfregar os botões, a mecânica do game foi muito bem desenvolvida para lhe conduzir em uma jornada que lhe transforma de um aprendiz hesitante a um mestre das artes marciais.


Apesar do uso intenso de cores saturadas e vibrantes, o visual do game é sombrio e nunca pesa aos olhos como a estética 8-bit pode pesar às vezes. Seus gráficos prestam homenagem aos games da velha guarda – tal qual sua dificuldade. No entanto, conforme você se acostuma com os lindos gráficos pixelizados, vai notar que o visual de Hyper Light Drifter enriquece sua própria narrativa, e convida a prestar atenção aos detalhes. Diversas vezes voltei com calma a áreas previamente exploradas só para absorver mais da atmosfera do jogo em seus raros momentos de calma. E quem explora é recompensado, pois o mundo de Hyper Light Drifter esconde salas e labirintos secretos que sempre darão algum benefício àquele que os encontrar.

Complementando o esplendor visual estão o sound design, e a brilhante e assustadora trilha sonora compostos pelo americano Disasterpeace, que também compôs a trilha do aclamado puzzle-platform indie Fez (Polytron Corporation, 2012). As faixas ambientes dão um tom etéreo ao game como um todo. É raro que um jogo tão desafiador possa ser, ao mesmo tempo, tão relaxante!


Ao final do jogo, fiquei ansiando por mais… estava satisfeito em chegar ao fim da aventura, claro, mas também queria que ela fosse três ou quatro vezes maior! Hyper Light Drifter oferece um mundo melancólico mas fascinante, jogabilidade sólida e uma narrativa visual com a qualidade dos melhores games independentes. É tão marcante e único que fica difícil passar batido. Super recomendado!

Flávio

Me formei na faculdade de Design em 2007, sou apaixonado pela minha profissão, por rock'n'roll, cozinhar, jogar video game, por Star Wars e hamburger. Colaborador do Greenpeace e Médicos Sem Fronteiras.

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