Religião, trevas e primorosa pixel art no belo Blasphemous

Quando meu irmão me mostrou Blasphemous (The Game Kitchen, 2019) fiquei enfeitiçado pelo visual. Monstros grotescos, humanos amaldiçoados e perversão religiosa, invocando uma visão deturpada da igreja católica e esboçando um mundo de fantasia sombrio, de riqueza histórica e cultural, me impressionaram. Fiquei com isso na cabeça por um bom tempo, esperando a hora certa de embarcar nesta aventura, até que o fiz, recentemente, na semana do lançamento do DLC La Herida del Ocaso.


Uma terrível desgraça caiu sobre a terra de Cvstodia e todos seus habitantes. Conhecido como El Milagro Doloroso, essa divindade misteriosa e toda-poderosa transformou culpa, arrependimento, luto e todas as dores da alma em manifestações demoníacas com o único propósito de causar mais dor.

Cabe ao protagonista, aqui denominado Penitente — último sobrevivente da Hermandad del Lamento Mudo cujos membros, contrários à autoridade do Pontífice Escribar, são reconhecidos pelo seu voto de silêncio e por ostentar um longo capirote metálico envolto em espinhos —, que se encontra preso em um ciclo eterno de penitência onde morre e ressuscita constantemente, embarcar em sua própria via crucis e, por meio de três humilhações, alcançar a basílica Madre de Madres, expiando seus pecados, e pondo fim também às vontades d’El Milagro e ao sofrimento do povo de Cvstodia.

No controle do Penitente, você é livre para explorar o mundo do game na ordem que quiser. Blasphemous é essencialmente um metroidvania, o que significa progredir não-linearmente, indo e vindo inúmeras vezes e abrindo novas passagens no mapa conforme melhora suas habilidades.

A mecânica de combate é simples, mas um dos atributos mais excitantes do jogo. É rápido e visceral. Os golpes que você desfere têm impacto, e grandes jorros de sangue ajudam a transmitir sua selvageria! Há também um foco na defesa, com o Penitente capaz de bloquear com sua espada – chamada Mea Culpa – ou aparar o ataque de um inimigo se agir no tempo certo, o que abre a possibilidade de finalizá-lo com um golpe ainda mais violento.

Entre mortes e batalhas sangrentas, você vai acumular uma variedade imensa de itens colecionáveis que enriquecem a experiência narrativa do game, dando uma visão mais ampla dos acontecimentos d’El Milagro. Alguns desses itens também melhoram as habilidades com a espada, a quantidade de vida e magia – chamadas de Rezos, ou orações. Usar essas novas habilidades consome a barra de Fervor, e aqui entra a mecânica mais importante da dificuldade de Blasphemous: cada morte deixa para trás uma estatueta, simbolizando sua Culpa, que deve ser recuperada; quanto mais estatuetas (isto é, mais mortes) você deixar sem recuperar, menor ficará a barra de Fervor, impedindo que você execute ataques especiais e Rezos. Se porventura recuperar as estatuetas provar-se um desafio, você tem a possibilidade de oferecer Lágrimas de Enmienda – a “moeda” do jogo – a algumas estátuas de uma figura em prece, que em troca perdoarão sua Culpa.


Blasphemous me conquistou com seus gráficos 2D fenomenais; esteticamente, os artistas da The Game Kitchen encontraram um caminho que resgata os games dos anos ’90, transformado em um mundo sombrio, amaldiçoado e misterioso, trazido à vida com uma paleta de cores sublime, no qual você imerge completamente.

Sua direção de arte empresta muito dos clássicos de pixel art, com um toque especial ao retratar a violência de forma tão gráfica – e ouça minhas palavras, esse jogo é violento. As cutscenes cheias de mutilações (a primeira cena do game mostra uma fiel apunhalando-se até a morte); as execuções brutais, as lutas contra chefões aterrorizantes, e até recuperar sua vida (em que o Penitente quebra um frasco e banha-se em sangue) mostram um nível de barbaridade que dá o tom de Blasphemous por meio das excepcionais animações. Até os menores detalhes foram pensados para criar uma experiência pesada que você não esquecerá.

Alguns cenários criados por Jesús Campos “Nerkin”

Em Blasphemous, os cenários também são essenciais para estabelecer o clima. Montanhas colossais retratam madres melancólicas, igrejas com fileiras de bancos a se perder de vista, um mar de pecadores transformados em sal e, claro, a mencionada irmandade do Lamento Mudo transformada em um imenso sepulcro.

A trilha sonora épica composta por Carlos Viola fecha com chave de ouro, mesclando instrumentos musicais antigos e outros usados nas procissões com a métrica do flamenco, dando uma voz sombria e taciturna como as melhores composições dos séculos passados, a exemplo do poema sinfônico “Danse macabre, op. 40” escrito em 1874 pelo compositor francês Camille Saint-Saëns.

Por fim, você já percebeu que tenho usado os nomes em espanhol para os personagens, itens e elementos presentes em Blasphemous. Isso porque joguei o game com a dublagem original em espanhol, o que enriqueceu ainda mais a atmosfera e a narrativa do jogo. Recomendo!

Inspiração em séculos de cultura e do sagrado

Para criar o mundo de Blasphemous, os designers emprestaram diversos conceitos, ideias e estilos arquitetônicos castelhano, hispalense e andaluz, das 91 catedrais que constituem Patrimônio Cultural espanhol. Além disso, ao menos três santos – São Sebastião, São Francisco de Assis e Santa Vilgeforte – inspiraram os designs de alguns personagens e demônios. Outros inimigos e o protagonista têm inspiração em famosas obras de arte sacra como a pintura “Procesión de disciplinantes” (Goya, 1812-1819) e a escultura “Pietà” (Michelangelo, 1499); um NPC baseado na pintura “Magdalena Ventura con su marido” (José de Ribera, 1631); há elementos inspirados nas gravuras do francês Gustave Doré para o poema épico “La Divina Commedia” (Dante, 1304-1321) e até alguns monstros e cenários do jogo me lembram as esculturas do artista americano contemporâneo Kris Kuksi. O número de elementos em Blasphemous inspirados pela Arte européia, principalmente espanhola, é grande demais para citar todos.


Blasphemous é simplesmente brilhante! Explorei obsessivamente todo o mapa e terminei com 97,86% aproveitando cada minuto das quase 30 horas de jogo. Fica claro que muito esforço e visão foram colocados em cada detalhe; há um nível de refinamento e finesse que diferencia o game de outros no gênero. Entre sua mecânica precisa de combate, seu mundo minuciosamente trabalhado, e os confrontos com criaturas e chefes ferozes, há muito que admirar aqui… e sob esse manto cruel ainda há uma linda e sinistra história a ser descoberta. Blasphemous não é só um video game; é um artefato antropológico digital e um dos melhores games que já joguei.

Flávio

Me formei na faculdade de Design em 2007, sou apaixonado pela minha profissão, por rock'n'roll, cozinhar, jogar video game, por Star Wars e hamburger. Colaborador do Greenpeace e Médicos Sem Fronteiras.

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