Uma aventura de terror que cabe no seu bolso

Existem duas abordagens clássicas para o terror, seja nos filmes ou video games: a primeira se apoia em jump scares banais – algo pula na tela e dá um susto, que logo passa. A segunda é mais duradoura, lentamente construindo tensão por meio de uma atmosfera tenebrosa, deixando a sensação que algo vai acontecer a qualquer momento. Essa captura melhor a imaginação, e The Last Door: Collector’s Edition (The Game Kitchen, 2013-1016) é um brilhante exemplo.

O game é fortemente influenciado, como muitos outros jogos de terror, pela literatura de Edgar Allan Poe e, nesse caso, H. P. Lovecraft; porém, ao contrário da maioria, os criadores de The Last Door entendem que a obra de Lovecraft trabalha especialmente a sugestão do horror e como a imaginação do leitor encarrega-se de preencher as lacunas e invocar imagens mais aterrorizantes do que o próprio autor possa criar.

Ambientado na Inglaterra vitoriana no ano da graça de 1891, The Last Door usa de escrita elegante e perspicaz, gráficos em baixíssima resolução e uma trama sonora maravilhosa para criar uma atmosfera perturbadora e imersiva que nos prende até o último ponto final da narrativa.


Criado pelo estúdio por trás do fantástico Blasphemous (2019) e apoiado por uma campanha do Kickstarter em 2012, em The Last Door você controla Jeremiah Devitt. Ele recebe uma carta misteriosa, escrita por um de seus antigos colegas de internato, e viaja para socorrê-lo. Os eventos que se desdobram levam o protagonista ao condado de Sussex, onde descobre que algo que fez na época da escola ameaça sua vida e a de seu antigo grupo de amigos. Esse é o pano de fundo para uma aventura que resgatará as memórias e tormentos de Devitt, reuni-lo-á com seus velhos amigos e explorará o sobrenatural na Grã-Bretanha do século XIX.

Se você jogou aventuras point and click como o clássico Full Throttle (LucasArts, 1995) ou o recente OxenFree (Night School Studio, 2016), a jogabilidade será familiar. Você se move pelos cenários clicando/tocando na tela, interage com NPCs e centenas de objetos que desvendam aos poucos a história, e até pega alguns necessários para a solução dos enigmas do jogo, que podem ser simples como usar uma chave em uma porta ou fazê-lo gastar dezenas de minutos correndo pelos cenários, checando obsessivamente cada canto apenas para descobrir como abrir um envelope.

Na parte de baixo da tela fica o inventário com os objetos coletados e uma lupa que dá a descrição de cada item que você pegou. A regra geral de todo adventure point and click é que você deve ler tudo, pois as dicas para a solução de cada puzzle estão nos textos, e The Last Door não é diferente; uma boa leitura torna os enigmas intuitivos e você poderá resolver todos sem problemas, isto é, se conseguir encontrar os objetos perdidos nos gráficos de tão baixa resolução (sério, alguns têm literalmente 2 pixels de tamanho), principalmente se jogar na tela do smartphone.


Apesar dos gráficos pixel art em super baixa resolução, a estética funciona nesse jogo. Os cenários são detalhados o suficiente para diferenciarmos cada objeto e para criar uma atmosfera inquietante, nos fazendo imaginar quem mais está observando o protagonista além de nós mesmos. Assim como a obra de Lovecraft, The Last Door também usa da sugestão, não mostrando o que causa medo mas estimulando a imaginação. Em uma das cenas mais tensas, a tela fica toda preta e só ouvimos sons e ruídos, criando em nossas mentes cenários assustadores; isso prova o excelente trabalho de sound design da equipe. O som de água gotejando dá um ar de mistério… passos ao longe nos fazem questionar se estamos realmente sozinhos… o ruído da madeira rangendo sob os pés de Devitt… o crocito de um bando de corvos lá fora e até o som profundo das batidas do coração… todos ajudam a estabelecer a atmosfera do jogo.


Preciso informar que The Last Door: Collector’s Edition está dividido em 2 temporadas, cada uma com 4 episódios. O jogo é uma excelente opção para fãs de aventuras point and click ou da literatura de terror clássica mas, se você tiver dúvidas, pode experimentar o primeiro capítulo gratuitamente. Os episódios duram um tempo razoável, somando ao todo cerca de 20 horas. Se você gosta de terror que se constrói aos poucos ou busca uma experiência diferente, experimente The Last Door; é uma abordagem fresca ao terror que brilha através de seus gráficos 8-bit, junto com uma interessante narrativa sobrenatural para unir tudo.

Flávio

Me formei na faculdade de Design em 2007, sou apaixonado pela minha profissão, por rock'n'roll, cozinhar, jogar video game, por Star Wars e hamburger. Colaborador do Greenpeace e Médicos Sem Fronteiras.

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